Sobre ética e moral (do mundo, das pessoas, de grupos do zap zap)

Participo de alguns grupos de zap zap, coleguinhas de faculdade, gentes dos tempos de colégio (tentaram me botar num de família, mas fugi) etc. tal. Algumas dessas interações são úteis e práticas, inegável, mas algumas vezes é duro de aguentar, pode ter certeza. E em alguns momentos, algumas situações, guardo um carinho moral. Tudo muito normal.

Numa certa vez, um outro amigo (que não tem nada a ver com essas coisas comunicativas internéticas) disse uma frase que me marcou: “O trânsito deixa a burrice das pessoas patente”. Porque no trânsito, presos no tráfego ou até correndo, dirigindo ou sendo conduzido, nós convivemos em sociedade por meio de anteparos: carros, motos e ônibus. Normalmente esses intermediadores refletem nossas finanças, não necessariamente nossas personalidades, mas o que interessa aqui é podem nos tornar algo diferente de ‘peasants’ (“pedestres” na língua inglesa, que é a mesma palavra para “camponeses” e para os “peões” do xadrez).

Não há a menor dúvida de que a internet (e/ou os espertofones) causa(m) esse mesmo efeito.

*

Não necessariamente que seja a burrice de convivas que venha à tona num grupo de zap zap, mas emerge algo que não são eles, pelo menos não inteiramente. Ninguém é capaz de encarar um grupo de dez pessoas pessoalmente (ou até uma pessoa vs. duas ou três). Mas na internet, anonimamente ou não, pelo fato de não encarar pessoalmente ninguém, há tipo um turbo de coragem (ou sei lá o quê, teimosice talvez) que tende impelir às pessoas a fazer/dizer coisas as quais elas pensariam duas (três, quatro…) vezes antes de fazer/dizer pessoalmente.

Não sou isento disso, é claro, mas busco ter consciência e ser coerente: dizer coisas que também diria pessoalmente. E mais: busco dizer coisas que eu igualmente diria cara a cara e socialmente, numa roda de conversa (ou sala de aula, por exemplo). Tento.

*

Estou tomando um grupo do zap zap apenas como uma amostra social, não tem nada de especial numa agremiação de pessoas como essa. Não são piores nem melhores que ninguém; e nalgumas ocasições, de certa forma, são especiais pra mim, mas isso também não é garantia de nada.

Entretanto, alguns comentários me deixam abismado. Ou melhor: fico abismado com o que eu vejo POR TRÁS de certas declarações.

Não, não tenho Olho de Thundera, não tenho visão além do alcance, mas eu mais ou menos gosto e conheço essas pessoas, convivo/convivi com elas. Então faço um exercício simples de solidariedade, de amizade (ou tentativa): busco ver com os olhos delas e pensar com a cabeça delas. Claro que é extremamente limitado e imperfeito, mas é o possível. Isso é tentar, explicitamente, ter mais de uma ética.

Agora vamo lá, que tá na hora, né: ética tem a ver com valores pessoais, moral tem a ver com valores sociais. Ética tem a ver com posturas pessoais, posições, visões de mundo, tem a ver com princípios. Moral tem a ver com a tradição, com a cultura de uma sociedade ou grupo (ou até grupelho), com nossas reações a valores externos, impostos e/ou trazidos de ancestrais (leis ou costumes, por exemplo). Ética é de dentro pra fora. Moral é de fora pra dentro. Ética pode variar de pessoa para pessoa, moral pode variar de povo para povo.

É possível uma única pessoal ter mais de uma ética. Um exemplo clássico: não devolver o troco a mais na feira (pra embolsar etc. e tal), mas devolver uma carteira ou mala cheia de dinheiro encontrada na rua. No entanto, a moral só varia se você mudar um grupo maior de pessoas: um grupo de gente que acha normal não pagar gorjeta a gorçons (e/ou que não dizer ‘obrigado’ e ‘por favor’ a garçons), e outro grupo que acha inadmissível não fazer essas coisas. Daí você samba conforme a música.

Contudo, alguns desses convivas se revelam absurdamente assertivos, convictos, unos. Talvez isso seja saudado como uma coisa boa e encante a alguns: “Lá vai uma pessoa coesa!”.

Para mim, me deixa de estupefato.

Agora cito (de memória) Herman Hesse, um trechinho do livro O lobo da estepe: “Dentro de um peito não podem conviver um lobo e um homem. Não porque um peito seja muito pequeno para comportar um homem e um lobo, mas sim porque um peito é muito grande para comportar apenas um lobo e um homem”. [Grifos meus.]

Mano, como é possível certas pessoas se portarem como se tivessem apenas uma ética, como se fossem regidas unicamente pela moral (que por sua vez, é a moral de apenas um grupo, ou grupelho)?

Isto é uma definição de moralista.

Isto é componente de uma visão simplificadora, dicotômica, maniqueísta. De “o bem contra o mal”, de “nós contra eles”, do “certo contra o errado”.

E obviamente que nós somos/estamos certos e eles, errados, não é mesmo?

Logo, portanto, por conseguinte, algum incauto poderia dizer: “nós somos éticos, eles são moralistas”.

*

Porém, para fins práticos, buscar guiar-se por coisos assim, sinceramente, deve ser atraente: aparentemente o certo e o errado ficam mais límpidos.

Tudo o que fontes “confiáveis” dizem, nós acatamos e seguimos, pois se trata de fontes confiáveis (e iluminadas pela luz da razão/deus, sei lá). O outro lado da moeda, por lógica, apontaria que tudo o que dizem fontes “não confiáveis” se trata da “esgotosfera”.

O “ciclo de compreensão das coisas” ficaria mais curto. Mais cômodo, talvez. E olha que coisa atraente: tornar nossa visão de mundo mais cômoda, mais conveniente!

Daí o Kurt Vonnegut escreve na pg. 220 da edição de bolso da LP&M de Café-da-manhã dos campeões mais ou menos o seguinte: “para fazer com que as pessoas as pessoas acreditem que a vida tem personagens principais, personagens coadjuvantes, detalhes importantes, detalhes desimportantes, lições a serem aprendidas, desafios a serem superados, e um começo, um meio e um fim. De acordo que eu me aproximava do meu aniversário de 50 anos, eu estava ficando cada vez mais furioso e abismado pelas decisões idiotas tomadas pelos meus compatriotas [Vonnegut é norte-americano, mas isso que ele tá falando é universal]. E então, subitamente, eu passei a sentir pena deles, ao passo que entendi que o quão inocente e natural era para eles se portar de forma tão abominável, com resultados tão abomináveis: eles estavam fazendo o melhor para viver como pessoas inventadas em livros [e filmes e letras de músicas e programas de televisão]. Esta é a razão pela qual norte-americanos atiram uns nos outros com tanta frequência: um recurso literário conveniente para terminar contos e livros.” [grifo meu, meu recurso linguístico para combinar como o ‘conveniente’ lá do parágrafo anterior].

Parece uma forma de “aplainar o terreno”, de limpar a área. Algo tido como bom, atribui-se (por uma convenção doida que estou adotando agora) o valor 1. Se algo é tido como ruim, atribui-se 0. E assim enxerga-se o mundo como máquinas binárias, como os tão admirados computadores ou celulares.

Obviamente, não estamos percebendo que, ao buscarmos nos portar como máquinas (por mais rápidas e eficiente e úteis que sejam), estamos nos desumanizando. [Embora o Frederico Nietzsche discorde, mas isso é papo pra outra hora.]

Eu até poderia chegar a um sujeito (ou sujeita) desses e dizer: “pessoa, sinto em te dizer, mas o buraco é mais embaixo: nenhum valor é único e válido por si só, nenhuma sociedade é perfeita (no sentido de ‘perfazer‘). Só por meio de comparações, às vezes de contrastes, que é possível se situar. E mesmo assim seria como fincar bandeira numa rolha de cortiça no meio de uma tormenta”.

Mas aí ele/a/x vai me achar um louco, obviamente.

E vai me rechaçar furiosamente: “como você ousa questionar meu sistema em perfeito equilíbrio, minha visão de mundo, ou melhor: a visão de mundo correta, seu esgoto?!?!”.

Eu ‘ouso’ te desafiar, eu ouso tentar te quebrar, te tombar, mas de forma pacífica e fraternal, porque te quero bem, e principalmente porque, moço/a/x, já não sou mais assim. Já não sou perfeito.

Porque eu cresci, pessoal, social, fraternalmente.

Um outro amigo (este sim frequentador desses rolês internéticos, mas com moderação) certa vez me elucidou o mito do dr. Fausto (de Goethe, de Mann, da humanidade): “uma vez que você cruza essa linha, não tem mais volta”. No caso do Fausto, como é sabido, é feito um pacto com o diabo, em troca de conhecimento/clarividência, de poder. É o mesmo mito da “maçã do conhecimento” (digamos assim) oferecida por Eva a Adão, depois de ser seduzida pela serpente.

No meu caso, pobre de mim, nem o diabo me fez proposta alguma, nem eu consegui clarividência/conhecimento sobre o mundo, as coisas, as pessoas. Mas eu mudei de patamar. Uma única ética ou moral do mundo, das coisas, das pessoas, não me basta mais. Não me perfaz.

Meu peito é grande demais para apenas isso.

*

“Mas nem no perímetro da vaidade conseguimos ter paz. Tem gente que briga pois acha que a própria verdade é a mais absoluta de todas.”, disse um.

Não, mano, não, mano: não, mano! Você tá entendendo errado: não discordo de você porque tenho certeza das minhas ideias, porque tenho convicções convictas. Eu discordo de você justamente pelo motivo contrário: porque NÃO tenho convicção de porra alguma. Porque sou e estou aberto a conversar, a dialogar, porque eu permito que as pessoas igualmente discordem de mim, que pessoas me convençam de que estou enganado.

Se eu não discordar, se eu não discutir, não me apresento aberto. Encolho o meu peito.

E quer uma dica? Aproveite, bixo, me pague um café/cerveja e conversemos. Desde que você converse comigo da mesma forma como estou disposto a conversar contigo.

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Urubus sem penas

Para uma garota que não conheço pessoalmente, mas creio que é muito sagaz,

Adaptação de Francisco J. ‘Chico/Pancho’ Lombardi, baseado num conto cortante de Julio Ramón Ribeyro, ambos du Peru.

Na real, há substanciais alterações do conto original para esta filmagem, tanto que é apenas um trecho de um longa peruano de 1990, Caídos do céu (Caídos del cielo), mas isso pouco importa. O que importa é que o Chico (por meio do IMDB descobri que já um outro filme dele, Pantaleão e as visitadoras, que é esplêndido) manteve o espírito da coisa.

*

E como achei o conto e o curta tão lindos (e TÃO doloridos), isso tudo me despertou um pequeno barril de pólvora de sinapses e referências cruzadas:

“Só para fumantes” (incluída minha primastral, claro)

Na ausência de um melhor entendimento sobre meu parentesco com uma moça muito bacana que conheci mais ou menos recentemente, a partir de agora agora vou ‘batizá-la’ de “minha primastral” (prima astral). Até onde sei, não sou parente de sangue dela, mas isso pouco importa. O que importa é que ela me deu de presente* um livro esplêndido, intitulado justamente “Só para fumantes”, de um peruano chamado Julio Ramón Ribeyro. Fumante como Braga, discípulo de Vonnegut, louco como Furtado e guerreiro como Raul que sou, não tenho palavras para agradecê-la por trazer isso pra minha vida.
Brigado, moça.

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* Na ausência de um melhor entendimento sobre se essa moça me emprestou ou se realmente me deu esse livro de presente, tal como a ‘batizei’ de “primastral”, a partir de agora esse livro está ‘batizado’ de “meu livro”. Mas prontamente eu empresto de volta se ela pedir. Ou até mais: até compro uma outra cópia e dou de retro-presente pra ela, mas creio que este exemplar não deixará de ser minha posse (em síntese, este ‘asterístico’ inteiro aqui é um migué danado, tô querendo enganar quem?).

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Os estudantes [universitários em uma biboca perdida no interior do Peru chamada Huamanga, tal como TTB ou SJC], quase todos do lugar ou de províncias vizinhas, eram jovens ignorantes, sérios e estudiosos, convictos de que bastava ter um diploma para ter acesso ao mundo da prosperidade.

Mas isso não tem nada que ver com nada, exceto que achei uma passagem incrivelmente atual: uma descrição absurdamente precisa de coleguinhas da Unitau.

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(Agora sim:)

Que tipo de recompensa eu obtinha do cigarro para ter sucumbido a seu império e me transformado num servo curvado a seus caprichos? […] [J]á que fumar não me produzia euforia, nem lucidez, nem estados de êxtase, nem visões sobrenaturais, nem suprimia a dor ou a fadiga.
[…]
Não me restou outro remédio senão inventar minha própria teoria. Teoria filosófica e absurda, que menciono aqui por pura curiosidade. Imaginei que, segundo Empédocles, os quatro elementos primordiais da natureza eram o ar, a água, a terra e o fogo. Todos eles vinculados à origem da vida e à sobrevivência da nossa espécie. Com o ar estamos em contato permanente, já que o respiramos, o expelimos, o condicionamos. Com a água também, já que a bebemos, nos lavamos com ela e com ela temos prazer em exercícios natatórios ou submarinos. Igualmente com a terra, pois caminhamos sobre ela, a cultivamos, a modelamos com nossas mãos. Mas com o fogo não podemos ter relação direta. O fogo é o único dos quatro elementos de Empédocles que nos afasta, pois sua proximidade ou contato nos faz mal. O único jeito de nos vincularmos a ele é através de um mediador. E esse mediador é o cigarro. O cigarro permite que nos comuniquemos com o fogo sem ser consumidos por ele. O fogo está num extremo do cigarro e nós no oposto. E a prova de que esse contato é estreito reside em que o cigarro arde, mas é a nossa boca que expele a fumaça. Por meio dessa invenção, completamos nossa necessidade ancestral de nos religarmos com os quatro elementos originais da vida. Essa relação foi sacralizada pelos povos primitivos mediante cultos religiosos diversos, terrestres ou aquáticos e, no que diz respeito ao fogo, mediante cultos solares. Adorou-se o Sol porque encarnava o fogo e seus atributos, a luz e o calor. Secularizados e descrentes, já não podemos mais render homenagem ao fogo a não ser através do cigarro. O cigarro seria assim um sucedâneo da antiga divindade solar, e fumar, uma forma de perpetuar o seu culto. Uma religião, em suma, por mais banal que possa parecer. Daí que renunciar ao cigarro seja um ato grave e dilacerante, como uma abjuração.

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Finalmente, a única coisa que gostaria de acrescentar (e já adianto que tô nem aí pro seu descrédito, leitor/a), é que, em algum momento, eu tive uma ideia muito, mais muito parecida com essa do Ribeyro. Eu imaginei que fumar era um ato de brincar com fogo, uma espécie de autoafirmação da dominação do fogo, no simples ato de trazer consigo o comburente e o combustível (não é bem isso, mas digamos que seja o cigarro e o isqueiro/fósforo) ao alcance das mãos.

Tanto que (digo isto um bocado envergonhado, é verdade, pois trata-se algo muito, mas muito possessivo, o lado feio da manifestação de um amor), se possível, pois seria problema de meus herdeiros, quando morrer, eu gostaria de ser enterrado (ou cremado, olha só que interessante!) com um maço de cigarros no bolso. E também um isqueiro ou caixinha de fósforos, por favor.

E “oxalá que chova café”:

13.

Daqui: http://www.avclub.com/article/15-things-kurt-vonnegut-said-better-than-anyone-el-1858 .

1. “I urge you to please notice when you are happy, and exclaim or murmur or think at some point, ‘If this isn’t nice, I don’t know what is.'”
1. “Eu peço com urgência para quando você perceber que está feliz, para que você exclame ou murmure ou pense em algum momento: ‘Se isso não é uma coisa bacana, então eu não sei o que é.'”

2. “Peculiar travel suggestions are dancing lessons from God.”
2. “Sugestões peculiares de viagens são como lições de dança de Deus.”

3. “Tiger got to hunt, bird got to fly; Man got to sit and wonder, ‘Why, why, why?’ Tiger got to sleep, bird got to land; Man got to tell himself he understand.”
3. “Tigres têm de caçar, pássaros têm de voar; homens têm de sentar e se perguntar ‘por quê? por quê? por quê?’. Tigres têm de dormir, pássaros têm de pousar; homens tem dizer a si mesmos que entendem das coisas.”

4. “There’s only one rule that I know of, babies—God damn it, you’ve got to be kind.”
4. “Crianças, só existe uma única regra que eu saiba, maldito deus, você tem de ser bondoso.”

5. “She was a fool, and so am I, and so is anyone who thinks he sees what God is doing.”
5. “Ela era uma tola, assim como eu, assim como qualquer um que pensa que sabe o que Deus está fazendo.”

6. “Many people need desperately to receive this message: ‘I feel and think much as you do, care about many of the things you care about, although most people do not care about them. You are not alone.'”
6. “Muitas pessoas precisam desesperadamente receber esta mensagem: ‘Eu sinto e penso o mesmo que você, me importo tanto sobre as coisas quanto você, embora muitas pessoas não se importam. Você não está sozinho.'”

7. “There are plenty of good reasons for fighting, but no good reason ever to hate without reservation, to imagine that God Almighty Himself hates with you, too.”
7. “Há uma imensidão de boas razões para lutar, mas nenhuma boa razão para odiar sem reservas, e nenhuma razão para imaginar que Deus Todo Poderoso estaria do seu lado nesse ódio todo.”
(Este foi o mais sofrido de traduzir, porque, na real, eu entendi errado o original… aí não há tradutor bom que consiga contornar burrice, né? E que Deus Todo Poderoso abençoe os revisores.)

8. “Since Alice had never received any religious instruction, and since she had led a blameless life, she never thought of her awful luck as being anything but accidents in a very busy place. Good for her.”
8. “Como a Alice nunca tinha recebido nenhuma criação religiosa, e como ela tinha tido uma vida sem culpas, ela nunca pensou sobre sua imensa sorte como alguma coisa que não fosse um bilhete premiado, apenas um em um milhão de chances. Bom pra ela.”

9. “That is my principal objection to life, I think: It’s too easy, when alive, to make perfectly horrible mistakes.”
9. “Esta é a minha principal objeção à vida: é tão fácil, enquanto a gente está vivo, cometer erros absolutamente horrendos.”

10. “Literature should not disappear up its own asshole, so to speak.”
10. “A literatura não deveria desaperecer enfiada no próprio cu, assim por dizer.”

11. “All persons, living and dead, are purely coincidental.”
11. “Todas as pessoas, vivas e mortas, são pura coincidência.”

12. “Why don’t you take a flying fuck at a rolling doughnut? Why don’t you take a flying fuck at the mooooooooooooon?”
12. “Por que você não vai tomar no cu no meio de uma rosquinha girando? Por que você não vai tomar no cu no meio de uma viagem à Luuuuuuuuuuuuua?”

14. “I have been a soreheaded occupant of a file drawer labeled ‘science fiction’ ever since, and I would like out, particularly since so many serious critics regularly mistake the drawer for a urinal.”
14. “Há muito tempo tenho sido uma dor de cabeça ao ocupar as prateleiras de ‘ficção científica’, e eu gostaria de sair de lá, particularmente porque muitos críticos sérios confundem regularmente essas prateleiras com um urinol.”

15. “We must be careful about what we pretend to be.”
15. “Precisamos ser cuidadosos com o que gostaríamos de parecer ser.”

*

E eu não esqueci do nº 13 não:
13. “So it goes.”
13. “Coisas da vida.”

 

(Postagem atualizada em 12/02/16 com uma revisão de L.C., a quem agradeço muitíssimo.)

Fundamental

(Daqui, ó: http://cartamaior.com.br/?/Coluna/Fundamentalismo-do-Ocidente-e-do-Extremo-Ocidente/32804 , e é copyleft, pq o Boff é massa.)

Fundamentalismo do Ocidente e do Extremo Ocidente

Diria com certo exagero, mas nem tanto que o fundamentalismo é uma das doenças crônicas do Ocidente e também do Extremo Ocidente e das mais deletérias.

Por Leonardo Boff, em 05/02/2015

Predominante é o fundamentalismo islâmico. Mas há também uma onda de fundamentalismo especialmente na França e na Alemanha onde comparecem fortemente a xonofobia, a islamofobia, o antiseminitismo. Os vários antentados da al-Qaeda e de outros grupos jihadistas alimentam esse sentimento que desumaniza a todos: as vítimas e os causadores das vítimas. Podemos comprender os contextos globais que subjazem à violência terrorista, mas jamais, por nenhum motivo, aprová-la por seu caráter criminoso.

Radical é o fundamentalismo em vários grupos do Islam, criando um novo tipo de guerra: o terrorismo. Atualmente é ofensivo  acusar alguém de fundamentalista. Geralmente só os outros são fundamentalistas, esquecendo, não raro, que quem acusa também vive numa cultura de raiz fundamentalista. É sobre isso que quero me deter rapidamente, mesmo irritando não poucos leitores. Refiro-me ao fundamentalismo presente em amplos setores  do Ocidente e do Extremo Ocidente (as Américas).

Historicamente o fundamentalismo que já pre-existia, ganhou corpo no protestantismo norte-americano entre 1890 e 1915 quando um grupo de pastores publicou uma coleção de 12 fascículos teológicos com o título Fundamentals: a testimony of the Thruth (Fundamentos: um testemunho da verdade). Ai se afirmava o caráter absoluto das verdades de fé, contra a secularização, fora da quais só poderia haver erro. Esse fundamentalismo perdura ainda hoje em muitas denominações critãs e em setores do catolismo conservador à la Lefbvre.

Diria com certo exagero, mas nem tanto que o fundamentalismo é uma das doenças crônicas do Ocidente e também do Extremo Ocidente e das mais deletérias. É tão arraigada que virou inconsciente mas bem expressa pelo político mais hilário e grosseiro da Europa, Silvio Berlusconi que declarou ser a civilização ocidental a melhor do mundo e, por isso,  a ser  imposta a todos. Cito dois tipos de fundamentalismo: um religioso e outro politico.

O cristianismo de versão romano-católica foi por séculos a ideologia hegemônica da sociedade ocidental, do “orbis catholicus”. Nesta lógica vejam o absolutismo de dois Papas, uma expressão clara de fundamentalismo.

O Papa Alexandre VI (l492-1503) pela bula Inter Caetera destinada aos reis de Espanha determinava:”Pela autoridade do Deus todo-poderoso a nós concedida em São Pedro, assim como do vicariato de Jesus  Cristo, vos doamos, concedemos e entrregamos com todos os seus domínios, cidades fortalezas, lugares e vilas, as ilhas e as terras firmes achadas e por achar”. Isso foi tomado a sério e legitimou a colonização espanhola com a destruição de etnias, culturas e religiões ancestrais.

O Papa Nicolau V (1447-1455) pela bula Romanus Pontifex dirigida aos reis de Portugal é ainda mais arrogante:”Concedo a faculdade plena e livre para invadir, conquistar, combater, vencer e submeter a quaisquer sarracenos e pagãos em qualquer parte que estiverem e reduzir à servidão perpétua as pessoas dos mesmos”. Também essa faculdade foi exercida no sentido de “dilatar a fé e o império” mesmo à custa da dizimação de nosos indígenas (eram 6 milhões) e a devastação de nossas florestas.

Esse versão religiosa ganhou uma tradução secular nos colonizadores que praticavam tal terror sobre os povos.

Lamentavelmente essa versão absolutista foi ressuscitada por um controvertido documento do então Card. Joseph Ratzinger, Dominus Jesus (2001) onde reafirma a idéia medieval de que fora da Igreja não há salvação. Os demais estão em situação de risco face à salvação eterna.

A versão religiosa acima ganhou expressão política pelo Destino Manifesto dos USA. Esta expressão foi cunhada em 1845 pelo jornalista John O’Sullivan para justificar o expansionismo norte-americano como a anexação de parte do México. Em 1900 o senador por Indiana, Albert Beveridge explicava:”Deus designou o povo norte-americano como  nação eleita para dar início à regeneração do mundo”. Outros Presidentes especialmente George W. Bush se remetiram a essa pretensiosa exclusividade. Ela justificou guerras de conquista especialmente no Oriente Médio.  Parece que em Barak Obama ela não está totamente ausente.

Em resumo concentrado: os dois Ocidentes se imaginam os melhores do mundo: a melhor religião, a melhor  forma de governo, a melhor tecno-ciência, a melhor cosmovisão. Isso é fundamentalismo que significa: fazer de sua verdade a única e impo-la aos demais. Essa arrogância está presente no consciente e no subconsciente dos ocidentais. Graças a Deus, criamos também um antídoto: a auto-crítica sobre os males que esse fundamentalismo tem trazido para a humanidade. Mas  não é compartilhado pela coletividade.

Vale a frase do grande poeta espanhol Antonio Machado: ”Não a tua verdade. A verdade. Vem comigo buscá-la. A tua, guarde-a”. Se a buscarmos juntos, no diálogo e na cordialidade, então  mais e mais desaparece a minha verdade para dar lugar a Verdade comungada por todos. E assim se pode, quem sabe, limitar  o fundamentalismo no mundo  nos dois Ocidentes.

*

(Eu sou louco ou isso é quase roquenrol?)

Bipolar

Ou: “Obrigado Fernanda”

(Funciona assim, aperta o play e ouça as músicas enquanto você lê, caro leitor/a. É a trilha sonora deste texto: http://grooveshark.com/playlist/2015+02+06+Gata+e+o+poder/104128871 .)

O livro Parafusos (Marbles, no original) da Ellen Forney, na minha opinião, não é ótimo, embora seja bom e principalmente corajoso e honesto. É preciso muito sangue frio para falar de si próprio como algumas mulheres maravilhosas andam fazendo nos quadrinhos, como Alison Bedchel (Fun Home e Você é minha mãe?) e Marjane Satrapi (Persepolis e Frango com ameixas, este último eu não li, mas boto fé que seja bom também). Se no cinema faltam diretoras (o machismo ainda reina, esta é a explicação), nos quadrinhos as mulheres estão (mais) em pé de igualdade. E elas brilham.

Não conhecia as tirinhas da Forney, uma série de uns 20 anos, Eu tinha 7 anos em 75 (assim como li pouquíssimo do Dykes to Watch For, algo como “Sapatas notáveis”, da Bedchel), então tudo começou numa mensagem da minha bródinha Fernanda, indicando uma reportagem de um site em inglês reunindo os quadrinhos mais importantes sobre mulheres, http://www.womenyoushouldknow.net/nine-graphic-novels-every-girl-should-read/ . Não só escrito POR mulheres, pois tem o Ghost World do Daniel Clowes (que virou um filme beeem médio, com a Scarlett Johansson novinha, mas a outra mina, a esquisita, para o meu gosto, é a mais gatinha do filme, a Thora Birch). A Fernanda ainda notou: “cheque o MArbles” (com direito a esta tipografia própria).

Chequei. Gostei. É um livro sobre uma moça bipolar, o subtítulo já é cativante: “Mania, depressão, Michelangelo e eu”. E o tradutor, Marcelo Brandão Cipolla, mandou muito bem ao escolher o nome “Parafusos”, pois em inglês a expressão (novamente, obrigado Fernanda), “loose your marbles” é algo como “ficar com um parafuso a menos”, ou simplesmente enlouquecer.

O livro é bem detalhista, tipo um diário de uns dez anos dos comportamentos da autora antes do diagnóstico, o começo e a maturidade do tratamento (não tem fim, é uma doença incurável). Muitas vezes serve até como guia médico/psiquiátrico/psicanalítico sobre o transtorno bipolar. Isso é muito útil tanto para os que têm essa doença, como para quem convive com eles e, talvez, para a sociedade em geral. Para explicar/falar, para lidar com isso, é normal ser/ficar doente nos tempos de hoje. Melhor: é normal ser/ficar doente desde sempre. Nós, bípedes falantes, somos muito muito frágeis (na real, assim como qualquer bicho; vida é algo frágil). Mas o tempo todo tentamos nos tornar, ou apenas parecer, fortes. Não somos. No mínimo SEMPRE parecemos ter um parafuso a menos.

Contudo, talvez esta intensa “obsessão médica” da autora sacrifique um pouco da narrativa, por vezes “as páginas de sintomas e afins” são mais interessantes do que “as páginas da historinha da Ellen”. Este talvez seja o grande defeito da obra. E o traço, algo simplista para o meu gosto, também não é um ponto alto, embora a reprodução do caderninho de ilustrações da autora, com desenhos de quando em depressão, isso é sublime!

E ela ainda pira na batatinha ao ficar se perguntando: “sou uma típica artista louca?”, “tem alguma relação entre arte e loucura?”, arte, arte, arte, ah, a arte! Moça, será que você poderia encher menos o saco e desenhar mais? Seus quadrinhos são bons, que mais você quer ouvir? Agora não apurrinha, por favor…

Mas mesmo assim: eu queria casar com a Ellen Forney! E sim, eu sou bipolar, e há pelo menos duas páginas inteiras da autora explicando sobre como contar e a reação das pessoas ao ouvir tal notícia. É algo sério, meio grave, piora com o envelhecimento, mas que é conhecido há algum tempo e é razoavelmente bem tratado. As mulheres sabem muito bem o que é ter “alterações cíclicas de humor”: TPM. Oka., deve ser bem mais forte que isso (na real, eu lá sei como é ficar de chico?), mas acho que é mais uma questão de como conviver com isso. Sou dependentes de remédios e acompanhamento médico até eu morrer. Mas somos dependentes de sabonete e pasta de dente, além de acompanhamento médico e dentário até morrermos. Não muda tanto. Procuro pensar que é normal ser maluco, de um jeito ou de outro.

O Livro na minha mesa de trabalho

Aviões em chamas no 11 de setembro joselóide

Ou: “O sonho com as moças”

Tenho três amigas (acho que tenho mais que isso, mas essas três são importantes pra essa história). Daí sonhei com duas delas. Várias vezes elas andam e bebem e encantam juntas. Tenho certeza de uma, a outra ficou meio turva, a resolução de sonho é meio baixa, tipo sinal de tevê com fantasma sintonizando Gazeta em cidade do interior.

Mas foi tipo assim:

Mesa de bar, muito provavelmente o James aqui em SJC, estava eu e duas delas sentados, bebendo e jogando conversa fora.

Daí passa um avião no céu pegando fogo. Pô, foda, triste e tal, uma moça fica nervosa e preocupada e quase dá xiliki (por isso que eu lembro quem era). Eu: “Pô, triste, foda, caiu. Não há nada que a gente possa fazer. O resgate deve chegar lá, vamo continuar tomando cerveja”.

Logo depois, passa OUTRO avião pegando fogo. Eu: “Ixi, fudeu mesmo, não é acidente, deve ser atentado, o 11 de setembro joselóide”. A tal moça quase tem uma síncope. Daí as pessoas enlouquecem, saem correndo desesperadas pela rua, tipo cena de filme-catástrofe de Hollywood, pânico básico. E eu: “Moças, peraí, vamo pelo menos terminar essa cerveja, daqui a pouco a gente busca abrigo, pois as ruas estão todas congestionadas mesmo, as pessoas estão surtando e tal, pânico básico”.

Em seguida passa um super-mega-jumbo-hiper-gigante-grande-bagarai, do tamanho de um transatlântico, tipo um zeppelin de zeus, voando baixo e pegando fogo e esquentado e iluminado tudo ao redor. E ele cai perto, tipo na Pça Afonso Pena, daí vem um monte de fumaça e poeira pra perto da gente.

Bem, aí fudeu, fudeu, fudeu. Deixa a cerveja pra lá: vamos para a casa dos meus pais, que é só virar a esquina.

Chegando lá, meu pai tranquilo: “Ih, não é nada não esses aviões…”. E eu entro no site do UOL pra ver notícias, a internet funciona normal (vai entender…), e tem qualquer notícia bosta falando mal da Dilma/PT/governo/Petrobrás/essas cosias.

Fim.