O que seria um governo a temer?

Texto de Francisco Conde (sim, meu pai), primeiro publicado aqui.

O roteiro está traçado. Falta o golpe, seja no TSE, seja no Congresso. Na moita, de tocaia, esperando ansiosamente o momento. Estão nervosos pois não têm tudo o que querem, a falta de legitimidade anda a escapar-lhes da mão. Mas, como a história do lobo e do cordeiro, vão tentar com ou sem ela.

O que aconteceria depois?

1 – Deixar a inflação estourar para aplicar o receituário abaixo, sob a alegação de “que o PT escondia a inflação”.
2 – Elevação da taxa Selic “para conter a inflação” — culpa do PT. Com isso os rentistas (1% mais ricos) ganhariam fabulosas somas num curto espaço de tempo.
3 – Elevação do preço da gasolina e demais derivados para “reequilibrar a Petrobrás” — culpa do PT.
4 – Destroçar a CLT, para “tornar o país competitivo”, liberar a indústria, o comércio, “das amarras dos direitos trabalhistas” — culpa do PT.
5 – Com 6 meses de inflação alta, os salários dos trabalhadores, dos servidores públicos e aposentadorias (CLT e servidores públicos dos três níveis, federal, estadual e municipal) seriam reduzidos a metade.
6 – País em recessão, desemprego, corte nos programas sociais (Bolsa Família, Prouni, Minha Casa Minha Vida, Luz Para Todos, Farmácia Popular etc), nos investimentos públicos para “ajustar as contas desequilibradas deixadas pelo PT”. Abandono da obra de transposição do São Francisco e outras obras de infraestrutura e integração. Cortes nas encomendas na indústria naval e de suprimentos para a exploração do petróleo brasileiro, abrindo o mercado a “concorrência internacional” a la FHC.
7 – Queima das reservas internacionais comprando títulos podres (“tóxicos”, na denominação codificada do mercado) dos bancos europeus à beira de uma outra crise (Santander, Deutsche Bank e outros). Depois diriam que o mercado “reverteu as expectativas, que foram surpreendidos pela queda misteriosa do valor dos títulos bons”.
8 – Com reservas e caixa zerados, pediriam empréstimos emergenciais ao FMI, que os dariam sob condições duríssimas: a liberação do pre-sal, arrocho salarial permanente, desvalorização do câmbio, demissão de servidores públicos nos três níveis (federal, estadual e municipal), privatização da Caixa, BB, Valec, portos, aeroportos e o que mais tiver.
9 – Arrocho nos estados e municípios, constrangendo-os a aplicarem a réplica do receituário do FMI.
10- Aprovação de uma lei “Antiterrorismo”, permitindo prisão preventiva para averiguações por tempo indeterminado (Prisões de Guantánamo institucionalizadas), proibindo manifestações e concentrações consideradas (por eles) antinacionais.
11- Censura dissimulada e, se necessária explícita, às redes sociais, blogs, revistas, carros de som e todo meio de comunicação. A rede globo seria salva da falência via perdão disfarçado da sua dívida tributária (parcelamento longuíssimo, com taxas inferiores as da inflação, seguido de empréstimo do BNDES para “investimento”).

O emprego, a remuneração do trabalho, as proteções trabalhistas, sociais e individuais, a pequena indústria, o pequemo comércio, o setor de serviços, pequenos e médios agricultores, estariam reduzidas drasticamente, ao arbítrio do tirano do momento. Este seria feroz com qualquer oposição, manifestação reivindicatória, ao mesmo tempo que atenderia todos os reclamos do capital internacional (leia-se americano e europeu, nesta ordem), nacional (no que sobrar, e na ordem: financeiro primeiro, especulativo no específico, e produtivo na sobra da sobra).

Isto não é tudo. Mas basta para darmos um basta. Não ao golpe. Não ao entreguismo. Não a ruína do mercado interno.
Pela democracia. Pala soberania. Pela liberdade.

Conde vs. José Alencar (o ex-vice presidente, não o autor daqueles livros do séc. XIX, que é José DE Alencar).
Conde vs. José Alencar (o ex-vice presidente, não o autor daqueles livros do séc. XIX, que é José DE Alencar).
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Quer domar seu ego?

Iniciado num sábado à noite (mais precisamente em 03/01/2015), sem muito dinheiro no bolso, na casa dos pais, bebendo vinho da casa dos pais, traduzindo de uma língua que eu domino mal, muito mal:

Alejandro Jodorowsky: Não converta uma dor em sofrimento: deixe-a vir, deixe-a passar, não se apegue a ela… Seja o que você é no presente, deixe para trás o passado, não carregue culpa. Elimina toda ansiedade pelo futuro. Prepare-se para trabalhar por sua evolução até o último instante da sua vida… Não preste contas a ninguém: seja seu próprio juiz. Aprende a criticar a si mesm@ e também a se felicitar. Cada noite, antes de dormir, relembre seu dia e julgue suas ações com objetividade… Se quiser triunfar, aprenda a fracassar. Não se defina pelo que possui… Nunca torne uma atividade ou outro ser no motivo de sua existência: entregue-se à sua própria vida, não delegue seu poder. Quando falar com alguém não o interrompa até que tenha concluído [que tenha expressado sua ideia]. Enquanto escutar [alguém] não o contradiga nem o aprove mentalmente: observe-o sem ter opiniões. Quando se calar, você, livremente, julgue o que foi dito e reaja com o que sua consciência lhe disser. Não se comprometa com ideias que não crê, nem sequer pela necessidade de obter um trabalho… Não dê conselhos sem advertir antes: “Segundo o que eu acredito e até onde eu sei, arriscando me equivocar”. Nunca afirme alguma coisa sem dizer ao final “Até certo ponto, em tal data e em tal local”… Nunca fale de você mesmo sem se conceder a possibilidade de mudar. Nunca fale de você mesmo como se fosse um ente limitado, sempre que fizer alguma coisa pense que você não existe individualmente, que o que você faz, você faz impulsionado por forças coletivas… Só aceitando que nada é seu você será don@ de tudo. Converta-se numa oferenda total… Pare de falar mal dos outros e do mundo: quando te perguntarem sua opinião sobre alguma coisa ou alguém diga apenas suas qualidades. Se não encontrar qualidades, cale-se… Faça o mais frequentemente possível ações positivas para o outro e para o mundo de forma gratuita e anônima… Quando ficar doente, em vez de odiar esse mal, considere-o seu Mestre… Aceite sem inveja os valores do outro… Não fale fazendo ressonar sua voz na cabeça ou no nariz ou na sua garganta, faça-a ressonar em seu peito [joga do peito]: use a voz do coração… Não toque o corpo do outro para tomar algo ou para rebaixá-lo; toque-o para acompanhar-lo… Não olhe dissimulando, olhe sempre diretamente… Dê, mas sem a obrigação de receber… Não faça [ninguém se sentir culpado] e aceite que você é cúmplice de tudo o que acontecer… Não se esqueça de seus mortos queridos, mas reserve a eles um lugar limitado para impedir que eles invadam toda sua vida. E no lugar onde [você morar] consagre um pequeno local ao sagrado… Que nunca haja sujeira ou desordem na sua cozinha… Quando desistir de um serviço não se atenha a ressaltar seus esforços: se decidir ajudar ou trabalhar para o outro, faça-o com prazer sem esperar agradecimentos… Se prometer, cumpra… Se duvidar entre fazer ou não fazer, arrisque-se a fazer, aceitando a possibilidade de fracassar… Não defina ninguém por sua raça, nem por seu sexo, nem por sua profissão, nem por suas ideias, simplesmente não defina ninguém… Não imite nem copie, absorva e transforme… Deixe de pedir e comece a agradecer… Não se proponha a ser tudo para alguém: conceda a liberdade de buscar em outr@s o que você não pode [oferecer]… Obrigue-se a si mesmo esse direito… Quando te fizerem uma pergunta não se obrigue a dar uma resposta: você pode se calar, fazer um gesto, ou [responder] com uma outra pergunta… Para conseguir algo, deseje de verdade… Trate o outro como você quer que os outros te tratem… Se não quiser cometer erros, nunca [alcançará] a perfeição… Se você não tiver fé e quiser [conseguir a perfeição, imite]… Quando alguém estiver triunfante diante do público não vá até o [espaço do outro] para contradizê-lo com [o objetivo] de roubar esse público. Crie seu próprio espaço e seu próprio público… Em casa alheia coma com moderação.

Para onde [te] convidarem, sempre chegue com um presente… Viva de um dinheiro ganhado por si mesmo com prazer… Não se [enfeite] com ideias de outros. Não tire fotografias junto a personagens famosos. Não se gabe de aventuras amorosas… Abandone seus hábitos físicos, sexuais, emocionais e mentais, busque constantemente a mudança… Não [tire vantagens] com a [piedade] por suas deficiências… Nunca [se encontre] com alguém somente para preencher seu tempo… Nas conversas não fale de si nem de acontecimentos [temporários], fale de temas… Pelo menos uma vez ao dia sente-se imóvel, sem palavras, emoções e desejos: observe seus acontecimentos interiores como se estivesse sentado na margem vendo um rio passar… Não impeça que seus filh@s cheguem mais longe que você, aceite o caminho que el@s escolherem. Nunca critique a seus amados. Deixe-@s crescer como e onde quiserem… Não se disfarce com personalidades falsas para que te admirem… Aja pelo prazer de agir e não pelo que esta ação pode te fazer ganhar… Obtenha para repartir… Se alguém te disser que cometeu uma falha e que tenha razão, não discuta e reconheça de imediato essa falha… Nunca dê um presente se preocupando depois sobre o que quem o recebeu fez dele… Se falar com pessoas de quem desconfia, não respire pela boca. Deixa-a fechada e inale somente pelo nariz. Não responda “Não é verdade”, diga melhor “Eu penso outra coisa”.

*

Finalizado numa sexta-feira à tarde, mais precisamente 25/03/2016 (mais de um ano depois de começado), sem muito dinheiro no bolso, na casa dos pais, fumando um cigarro e bebendo café na casa dos pais, traduzido de uma língua que eu domino mal, muito mal:

Alejandro Jodorowsky: No conviertas un dolor en sufrimiento: déjalo venir, déjalo pasar, no te aferres a él… Sé lo que eres en el presente, deja atrás el pasado, no cargues culpas. Elimina toda ansiedad por el futuro. Prepárate a trabajar por tu evolución hasta el último instante de tu vida… No le rindas cuentas a nadie: sé tu propio juez. Aprende a criticarte a ti mism@ y también a felicitarte. Cada noche, antes de dormir, repasa tu día y juzga tus acciones con objetividad… Si quieres triunfar, aprende a fracasar. No te definas por lo que posees… Nunca conviertas una actividad u otro ser en el motivo de tu existencia: entrégate a tu propia vida, no delegues tu poder. Cuando hables con alguien no lo interrumpas hasta que haya expresado su idea. Mientras lo escuchas no lo contradigas o apruebes mentalmente: óyelo sin tener opiniones. Cuando se calle, tú, libremente, considera lo que ha dicho y reacciona como tu conciencia te lo dicte. No te comprometas con ideas en las que no crees, ni siquiera por necesidad de obtener un trabajo… No des consejos sin advertir antes: “Según lo que yo creo y hasta donde yo sé, arriesgando equivocarme”. Nunca afirmes algo sin decir al final “Hasta cierto punto, en tal fecha y en tal sitio”… Nunca hables de ti sin concederte la posibilidad de cambiar. Nunca hables de ti como si fueras un ente limitado, siempre que actúes piensa que no existes individualmente, que lo que haces se hace impulsado por fuerzas colectivas… Sólo aceptando que nada es tuyo serás dueñ@ de todo. Conviértete en una total ofrenda… Cesa de hablar mal de los otros o del mundo: cuando te pregunten tu opinión sobre algo o alguien di sólo sus cualidades. Si no le encuentras cualidades, calla… Haz lo más frecuente posible actos positivos para el otro y el mundo en forma gratuita y anónima… Cuando te enfermes, en lugar de odiar ese mal, considéralo tu Maestro… Acepta sin envidia los valores del otro… No hables haciendo resonar tu voz en la cabeza o en la nariz o en tu garganta, hazla resonar en tu pecho: usa la voz del corazón… No toques el cuerpo del otro para tomarle algo o para rebajarlo: tócalo para acompañarlo… No mires con disimulo, mira siempre directo… Da, pero no obligues a recibir… No hagas sentir culpable a nadie y acepta que eres cómplice de todo lo que te sucede… No olvides a tus muertos queridos, pero dales un sitio limitado que les impidan invadir toda tu vida. En el lugar donde habitas consagra un pequeño sitio a lo sagrado… Que nunca en tu cocina haya suciedad o desorden… Cuando rindas un servicio no te quejes ni hagas resaltar tus esfuerzos: si decides ayudar o trabajar para otro, hazlo con placer sin esperar agradecimientos… Si prometes, cumple… Si dudas entre hacer o no hacer, arriésgate a hacer, aceptando la posibilidad de fracasar…No definas a alguien ni por su raza, ni por su sexo, ni por su profesión, ni por sus ideas, simplemente no lo definas… No imites ni copies, absorbe y transforma… Deja de pedir y comienza a agradecer… No trates de ser todo para alguien: concédele la libertad de buscar en otr@s lo que tú no puedes darle. Otórgate a ti mism@ ese derecho… Cuando te hagan una pregunta no te obligues a dar una respuesta: puedes callar, hacer un gesto, o reemplazar la respuesta por otra pregunta… Para obtener algo, desea de verdad obtenerlo… Trata al otro como quisieras que te trataran a ti… Si no quieres cometer errores, nunca lograrás la perfección… Si no tienes la fe y la quieres obtener, imítala… Cuando alguien esté triunfante delante de un público no vayas a su territorio para contradecirlo con el objeto de robarle ese público. Crea tu propio sitio y tu propio público… En casa ajena come con moderación.

A donde te han invitado, llega siempre con un regalo… Vive de un dinero ganado por ti mismo con placer… No te adornes con ideas ajenas. No te fotografíes junto a personajes famosos. No te jactes de aventuras amorosas… Abandona tus hábitos físicos, sexuales, emocionales y mentales, busca constantemente el cambio… No te vanaglories con simpatía de tus debilidades… Nunca veas a alguien sólo para llenar tu tiempo… En las conversaciones trata de no hablar de ti y ni de acontecimientos temporarios, habla de temas… Por lo menos una vez al día siéntate inmóvil, deteniendo tus palabras, tus emociones y deseos: observa tu acontecer interior como si estuvieras sentado en una orilla viendo pasar un río… No impidas que tus hij@s vayan más lejos que tú, acepta el camino que ell@s elijan. Nunca les critiques a sus seres amados. Déjal@s crecer como y hacia donde ell@s quieran… No te disfraces con personalidades falsas para que te admiren… Actúa por el placer de actuar y no por lo que esta acción puede hacerte ganar… Obtiene para repartir… Si alguien te dice que has cometido una falta y tiene razón, no le discutas y reconoce de inmediato esa falla… Nunca des un regalo preocupándote después de lo que el que lo recibió hizo de él… Si hablas con personas de las que desconfías, no respires por la boca. Tenla cerrada e inhala sólo,por la nariz. No le respondas “No es verdad”, dile mejor “Yo creo otra cosa”.

“EU ESTOU PROTEGENDO VOCÊ, SEU CALHORDA!”

Ao desabafar com grupo que o vaiava, diante de sua casa, o ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes tinha razão: no Brasil, autoritarismo volta-se com frequência contra aqueles que o defendem; Ciro expressa o que acontece após a ruptura do Estado Democrático de Direito quando até o guarda da esquina sente-se investido de superpoderes.

Artigo de Ayrton Centeno, adaptado por Bruno Conde, dedicado a um surfista calhorda

– Eu estou protegendo você, seu calhorda!

Dita no calor da hora, a frase dura de um possesso Ciro Gomes carrega um desaforo dos mais evidentes, tradicionais e utilizados para aquele momento em que a temperatura sobe e a cusparada retórica se projeta com sua missão de destratar. Era madrugada do dia 17 e um grupelho de jovens ululantes e disfuncionais fazia barulho diante da casa do ex-governador e ex-ministro de Itamar e Lula.

– Eu estou protegendo você, seu calhorda!

Mas, no caso, o mais importante não é o insulto saído da boca de um político notório pelo temperamento explosivo. Junto, traz um ensinamento sábio. Com sua validade confirmada pela história recente.

– Eu estou protegendo você, seu calhorda!

A última vez que tal conselho deixou de ser ouvido custou 21 anos de ditadura ao Brasil.

– Eu estou protegendo você, seu calhorda!

Em 1964, no momento em que articulava o golpe contra Jango, o arquiconspirador Carlos Lacerda desconsiderou a possibilidade de reversão do que urdia. Embora sagaz, não imaginou que a usurpação de um presidente eleito, que parecia abrir-lhe o caminho para a presidência, viesse a ser, como foi, o começo do fim de suas próprias ambições presidenciais. Aos 50 anos, vivia o auge de sua carreira. Foi preso e cassado pelos novos inquilinos do poder que ajudou a implantar. Morreria em 1977 sem recuperar seus direitos políticos. Provavelmente lamentaria não ter sido admoestado – antes da vitória que se transformaria em derrocada – por um adversário mais atrevido que lhe dissesse nas fuças:

– Eu estou protegendo você, seu calhorda!

Outro conspirador, Adhemar de Barros, também não ouviu a voz da razão. Ele e a mulher, Leonor, puxaram a edição paulista da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Também sonhava com o Planalto ao qual já fora duas vezes candidato. Seu problema era semelhante aos dos demais conjurados: falta de voto. Quando veio o golpe que pediu, Adhemar avisou: “Agora, caçaremos os comunistas por todos os lados do país”. Dono de cadeia de rádios e jornais que hoje compõem a Rede Bandeirantes, Adhemar levou uma rasteira do destino: foi caçado e cassado. A exemplo de Lacerda, morreu sem recuperar os direitos políticos.

– Eu estou protegendo você, seu calhorda!

O mesmo aconteceu com parcela dos jornais embarcados na conspirata, caso do Correio da Manhã, o mais destemperado dos inimigos de Jango, que feneceu destroçado pela censura e a perseguição dos militares. Claro que isso não se aplica às Organizações Globo, que somente se viabilizaram como um dos maiores impérios de comunicação do mundo através de suas relações carnais com um governo de assassinos. Sem vacilar diante da mentira, quando o poder constitucional foi derrubado, O Globo proclamou na sua manchete de capa em 2 de abril de 1964: “Ressurge a democracia”. Para o Globo, a democracia golpeada era a ditadura, enquanto a ditadura que chegava era a democracia.

– Eu estou protegendo você, seu calhorda!

Quando o golpe deu seus primeiros vagidos, a Ordem dos Advogados do Brasil, através de seu conselho federal, correu a embalar aquele sinistro berço de renda negra. Enalteceu “os homens responsáveis desta terra” que baniram “o mal das conjuras comuno-sindicalistas”. E, paradoxalmente, o estupro se dera “sob a égide intocável do Estado do Direito”. Sob a mesma égide e de tal estado, em 27 de agosto de 1980, uma carta-bomba na sede da Ordem matou a secretária Lyda Monteiro da Silva, de 59 anos. A carta era dirigida ao presidente do conselho federal da Ordem, Eduardo Seabra Fagundes. Ocorre que, após apoiar a implosão da Constituição, a OAB percebera seu erro. E mudara.

– Eu estou protegendo você, seu calhorda!

O Supremo, para vergonha dos pósteros, agiu igual. Sob o pitoresco olhar do STF, tudo estava em seu lugar: o golpe era legítimo, a democracia estava preservada e a constituição idem. Seu presidente, Álvaro Moutinho da Costa, saudou o general Castello Branco em visita à corte. Porém, após o AI-5, três ministros, os mais independentes, foram aposentados compulsoriamente.

– Eu estou protegendo você, seu calhorda!

Filha de coronel do Exército, a adolescente Sônia Moraes foi levada pelo pai e a mãe à versão carioca da marcha da família com deus pela liberdade. Era 1964 e os Moraes festejavam a queda do governo constitucional. O tempo passou, o regime mostrou seus dentes e Sônia desapareceu. Engajara-se na luta armada contra a ditadura. Presa, teve os seios arrancados e foi chacinada até a morte. Desesperado, o pai procuraria durante anos pela filha. Um dia recebeu um presente sem sentido, enviado pelo seu desafeto, o general Adyr Fiúza de Castro, comandante do DOI-Codi, no Rio. Era um cassetete da Polícia do Exército. Descobriria depois que aquilo representava uma advertência e um escárnio. Com aquele cassetete sua filha, Sônia Maria de Moraes Angel Jones, fora estuprada antes de morrer em suplicio.

– Eu estou protegendo você, seu calhorda!

Talvez da explosão de Ciro fique mais o destempero do que o aviso. Mas é este que conta e tudo resume. Não é o mandato de Dilma que está em jogo. Quando a comandante suprema das forças armadas é grampeada, o recado é sucinto: ninguém está livre, hoje foi ela, amanhã serão vocês. Por isso, a violência ilegal, absurda e flagrante que se abate sobre a atual e o ex-presidente é apenas uma fachada. Atrás dela vem o estado de exceção. Quando diz ao aprendiz de fascista “Eu estou protegendo você, seu filho da puta!”, Ciro expressa o que acontece após a ruptura do Estado Democrático de Direito quando até o guarda da esquina sente-se investido de superpoderes.

Como imensos contingentes da militância golpista limitam seu vocabulário a meia dúzia de chavões e não sabem bem o que estão fazendo ali e a História mostra que o que está acontecendo é somente um revival dos tempos de 1954 e de 1964, e tem muito a lhes ensinar, talvez a melhor resposta ao rancor não seja a de Ciro mas a do ministro Jaques Wagner. Aborrecido num restaurante com o glossário golpista de um cidadão que o importunava, reagiu de maneira sintética: “Vá estudar!” Estudo é uma arma de exterminar fascistas. E ainda poderemos dizer a quem seguir a sugestão: “Estamos protegendo você”.

Vai, pode falar, pode escrever
Eu vou me entregar
No meu lugar, quem não faria?

Diz que é loucura, diz que é besteira, mas eu não vou ligar
Não tente entender
E o tempo dirá
A sina é sonhar
Que eu pago pra ver
Qual meu lugar
Que a vida é um dia
Um dia sem culpa
Um dia que passa aonde a gente está

Ah, se eu tenho tanto a perder
Eu perco é o medo do que a sorte lê
Sabe o que quer
Sabe quem tem o que se quer

Diz que é loucura, diz que é besteira, mas eu não vou ligar
Não tente entender
E o tempo dirá
A sina é sonhar
Eu pago pra ver qual o meu lugar
Que a vida é um dia
Um dia sem culpa
Um dia que passa aonde a gente está

Ah, se eu tenho tanto a perder
Eu perco é o medo do que a sorte lê
Sabe o que quer
Sabe quem tem o que se quer

Sobre ética e moral (do mundo, das pessoas, de grupos do zap zap)

Participo de alguns grupos de zap zap, coleguinhas de faculdade, gentes dos tempos de colégio (tentaram me botar num de família, mas fugi) etc. tal. Algumas dessas interações são úteis e práticas, inegável, mas algumas vezes é duro de aguentar, pode ter certeza. E em alguns momentos, algumas situações, guardo um carinho moral. Tudo muito normal.

Numa certa vez, um outro amigo (que não tem nada a ver com essas coisas comunicativas internéticas) disse uma frase que me marcou: “O trânsito deixa a burrice das pessoas patente”. Porque no trânsito, presos no tráfego ou até correndo, dirigindo ou sendo conduzido, nós convivemos em sociedade por meio de anteparos: carros, motos e ônibus. Normalmente esses intermediadores refletem nossas finanças, não necessariamente nossas personalidades, mas o que interessa aqui é podem nos tornar algo diferente de ‘peasants’ (“pedestres” na língua inglesa, que é a mesma palavra para “camponeses” e para os “peões” do xadrez).

Não há a menor dúvida de que a internet (e/ou os espertofones) causa(m) esse mesmo efeito.

*

Não necessariamente que seja a burrice de convivas que venha à tona num grupo de zap zap, mas emerge algo que não são eles, pelo menos não inteiramente. Ninguém é capaz de encarar um grupo de dez pessoas pessoalmente (ou até uma pessoa vs. duas ou três). Mas na internet, anonimamente ou não, pelo fato de não encarar pessoalmente ninguém, há tipo um turbo de coragem (ou sei lá o quê, teimosice talvez) que tende impelir às pessoas a fazer/dizer coisas as quais elas pensariam duas (três, quatro…) vezes antes de fazer/dizer pessoalmente.

Não sou isento disso, é claro, mas busco ter consciência e ser coerente: dizer coisas que também diria pessoalmente. E mais: busco dizer coisas que eu igualmente diria cara a cara e socialmente, numa roda de conversa (ou sala de aula, por exemplo). Tento.

*

Estou tomando um grupo do zap zap apenas como uma amostra social, não tem nada de especial numa agremiação de pessoas como essa. Não são piores nem melhores que ninguém; e nalgumas ocasições, de certa forma, são especiais pra mim, mas isso também não é garantia de nada.

Entretanto, alguns comentários me deixam abismado. Ou melhor: fico abismado com o que eu vejo POR TRÁS de certas declarações.

Não, não tenho Olho de Thundera, não tenho visão além do alcance, mas eu mais ou menos gosto e conheço essas pessoas, convivo/convivi com elas. Então faço um exercício simples de solidariedade, de amizade (ou tentativa): busco ver com os olhos delas e pensar com a cabeça delas. Claro que é extremamente limitado e imperfeito, mas é o possível. Isso é tentar, explicitamente, ter mais de uma ética.

Agora vamo lá, que tá na hora, né: ética tem a ver com valores pessoais, moral tem a ver com valores sociais. Ética tem a ver com posturas pessoais, posições, visões de mundo, tem a ver com princípios. Moral tem a ver com a tradição, com a cultura de uma sociedade ou grupo (ou até grupelho), com nossas reações a valores externos, impostos e/ou trazidos de ancestrais (leis ou costumes, por exemplo). Ética é de dentro pra fora. Moral é de fora pra dentro. Ética pode variar de pessoa para pessoa, moral pode variar de povo para povo.

É possível uma única pessoal ter mais de uma ética. Um exemplo clássico: não devolver o troco a mais na feira (pra embolsar etc. e tal), mas devolver uma carteira ou mala cheia de dinheiro encontrada na rua. No entanto, a moral só varia se você mudar um grupo maior de pessoas: um grupo de gente que acha normal não pagar gorjeta a gorçons (e/ou que não dizer ‘obrigado’ e ‘por favor’ a garçons), e outro grupo que acha inadmissível não fazer essas coisas. Daí você samba conforme a música.

Contudo, alguns desses convivas se revelam absurdamente assertivos, convictos, unos. Talvez isso seja saudado como uma coisa boa e encante a alguns: “Lá vai uma pessoa coesa!”.

Para mim, me deixa de estupefato.

Agora cito (de memória) Herman Hesse, um trechinho do livro O lobo da estepe: “Dentro de um peito não podem conviver um lobo e um homem. Não porque um peito seja muito pequeno para comportar um homem e um lobo, mas sim porque um peito é muito grande para comportar apenas um lobo e um homem”. [Grifos meus.]

Mano, como é possível certas pessoas se portarem como se tivessem apenas uma ética, como se fossem regidas unicamente pela moral (que por sua vez, é a moral de apenas um grupo, ou grupelho)?

Isto é uma definição de moralista.

Isto é componente de uma visão simplificadora, dicotômica, maniqueísta. De “o bem contra o mal”, de “nós contra eles”, do “certo contra o errado”.

E obviamente que nós somos/estamos certos e eles, errados, não é mesmo?

Logo, portanto, por conseguinte, algum incauto poderia dizer: “nós somos éticos, eles são moralistas”.

*

Porém, para fins práticos, buscar guiar-se por coisos assim, sinceramente, deve ser atraente: aparentemente o certo e o errado ficam mais límpidos.

Tudo o que fontes “confiáveis” dizem, nós acatamos e seguimos, pois se trata de fontes confiáveis (e iluminadas pela luz da razão/deus, sei lá). O outro lado da moeda, por lógica, apontaria que tudo o que dizem fontes “não confiáveis” se trata da “esgotosfera”.

O “ciclo de compreensão das coisas” ficaria mais curto. Mais cômodo, talvez. E olha que coisa atraente: tornar nossa visão de mundo mais cômoda, mais conveniente!

Daí o Kurt Vonnegut escreve na pg. 220 da edição de bolso da LP&M de Café-da-manhã dos campeões mais ou menos o seguinte: “para fazer com que as pessoas as pessoas acreditem que a vida tem personagens principais, personagens coadjuvantes, detalhes importantes, detalhes desimportantes, lições a serem aprendidas, desafios a serem superados, e um começo, um meio e um fim. De acordo que eu me aproximava do meu aniversário de 50 anos, eu estava ficando cada vez mais furioso e abismado pelas decisões idiotas tomadas pelos meus compatriotas [Vonnegut é norte-americano, mas isso que ele tá falando é universal]. E então, subitamente, eu passei a sentir pena deles, ao passo que entendi que o quão inocente e natural era para eles se portar de forma tão abominável, com resultados tão abomináveis: eles estavam fazendo o melhor para viver como pessoas inventadas em livros [e filmes e letras de músicas e programas de televisão]. Esta é a razão pela qual norte-americanos atiram uns nos outros com tanta frequência: um recurso literário conveniente para terminar contos e livros.” [grifo meu, meu recurso linguístico para combinar como o ‘conveniente’ lá do parágrafo anterior].

Parece uma forma de “aplainar o terreno”, de limpar a área. Algo tido como bom, atribui-se (por uma convenção doida que estou adotando agora) o valor 1. Se algo é tido como ruim, atribui-se 0. E assim enxerga-se o mundo como máquinas binárias, como os tão admirados computadores ou celulares.

Obviamente, não estamos percebendo que, ao buscarmos nos portar como máquinas (por mais rápidas e eficiente e úteis que sejam), estamos nos desumanizando. [Embora o Frederico Nietzsche discorde, mas isso é papo pra outra hora.]

Eu até poderia chegar a um sujeito (ou sujeita) desses e dizer: “pessoa, sinto em te dizer, mas o buraco é mais embaixo: nenhum valor é único e válido por si só, nenhuma sociedade é perfeita (no sentido de ‘perfazer‘). Só por meio de comparações, às vezes de contrastes, que é possível se situar. E mesmo assim seria como fincar bandeira numa rolha de cortiça no meio de uma tormenta”.

Mas aí ele/a/x vai me achar um louco, obviamente.

E vai me rechaçar furiosamente: “como você ousa questionar meu sistema em perfeito equilíbrio, minha visão de mundo, ou melhor: a visão de mundo correta, seu esgoto?!?!”.

Eu ‘ouso’ te desafiar, eu ouso tentar te quebrar, te tombar, mas de forma pacífica e fraternal, porque te quero bem, e principalmente porque, moço/a/x, já não sou mais assim. Já não sou perfeito.

Porque eu cresci, pessoal, social, fraternalmente.

Um outro amigo (este sim frequentador desses rolês internéticos, mas com moderação) certa vez me elucidou o mito do dr. Fausto (de Goethe, de Mann, da humanidade): “uma vez que você cruza essa linha, não tem mais volta”. No caso do Fausto, como é sabido, é feito um pacto com o diabo, em troca de conhecimento/clarividência, de poder. É o mesmo mito da “maçã do conhecimento” (digamos assim) oferecida por Eva a Adão, depois de ser seduzida pela serpente.

No meu caso, pobre de mim, nem o diabo me fez proposta alguma, nem eu consegui clarividência/conhecimento sobre o mundo, as coisas, as pessoas. Mas eu mudei de patamar. Uma única ética ou moral do mundo, das coisas, das pessoas, não me basta mais. Não me perfaz.

Meu peito é grande demais para apenas isso.

*

“Mas nem no perímetro da vaidade conseguimos ter paz. Tem gente que briga pois acha que a própria verdade é a mais absoluta de todas.”, disse um.

Não, mano, não, mano: não, mano! Você tá entendendo errado: não discordo de você porque tenho certeza das minhas ideias, porque tenho convicções convictas. Eu discordo de você justamente pelo motivo contrário: porque NÃO tenho convicção de porra alguma. Porque sou e estou aberto a conversar, a dialogar, porque eu permito que as pessoas igualmente discordem de mim, que pessoas me convençam de que estou enganado.

Se eu não discordar, se eu não discutir, não me apresento aberto. Encolho o meu peito.

E quer uma dica? Aproveite, bixo, me pague um café/cerveja e conversemos. Desde que você converse comigo da mesma forma como estou disposto a conversar contigo.

Urubus sem penas

Para uma garota que não conheço pessoalmente, mas creio que é muito sagaz,

Adaptação de Francisco J. ‘Chico/Pancho’ Lombardi, baseado num conto cortante de Julio Ramón Ribeyro, ambos du Peru.

Na real, há substanciais alterações do conto original para esta filmagem, tanto que é apenas um trecho de um longa peruano de 1990, Caídos do céu (Caídos del cielo), mas isso pouco importa. O que importa é que o Chico (por meio do IMDB descobri que já um outro filme dele, Pantaleão e as visitadoras, que é esplêndido) manteve o espírito da coisa.

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E como achei o conto e o curta tão lindos (e TÃO doloridos), isso tudo me despertou um pequeno barril de pólvora de sinapses e referências cruzadas:

“Só para fumantes” (incluída minha primastral, claro)

Na ausência de um melhor entendimento sobre meu parentesco com uma moça muito bacana que conheci mais ou menos recentemente, a partir de agora agora vou ‘batizá-la’ de “minha primastral” (prima astral). Até onde sei, não sou parente de sangue dela, mas isso pouco importa. O que importa é que ela me deu de presente* um livro esplêndido, intitulado justamente “Só para fumantes”, de um peruano chamado Julio Ramón Ribeyro. Fumante como Braga, discípulo de Vonnegut, louco como Furtado e guerreiro como Raul que sou, não tenho palavras para agradecê-la por trazer isso pra minha vida.
Brigado, moça.

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* Na ausência de um melhor entendimento sobre se essa moça me emprestou ou se realmente me deu esse livro de presente, tal como a ‘batizei’ de “primastral”, a partir de agora esse livro está ‘batizado’ de “meu livro”. Mas prontamente eu empresto de volta se ela pedir. Ou até mais: até compro uma outra cópia e dou de retro-presente pra ela, mas creio que este exemplar não deixará de ser minha posse (em síntese, este ‘asterístico’ inteiro aqui é um migué danado, tô querendo enganar quem?).

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Os estudantes [universitários em uma biboca perdida no interior do Peru chamada Huamanga, tal como TTB ou SJC], quase todos do lugar ou de províncias vizinhas, eram jovens ignorantes, sérios e estudiosos, convictos de que bastava ter um diploma para ter acesso ao mundo da prosperidade.

Mas isso não tem nada que ver com nada, exceto que achei uma passagem incrivelmente atual: uma descrição absurdamente precisa de coleguinhas da Unitau.

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(Agora sim:)

Que tipo de recompensa eu obtinha do cigarro para ter sucumbido a seu império e me transformado num servo curvado a seus caprichos? […] [J]á que fumar não me produzia euforia, nem lucidez, nem estados de êxtase, nem visões sobrenaturais, nem suprimia a dor ou a fadiga.
[…]
Não me restou outro remédio senão inventar minha própria teoria. Teoria filosófica e absurda, que menciono aqui por pura curiosidade. Imaginei que, segundo Empédocles, os quatro elementos primordiais da natureza eram o ar, a água, a terra e o fogo. Todos eles vinculados à origem da vida e à sobrevivência da nossa espécie. Com o ar estamos em contato permanente, já que o respiramos, o expelimos, o condicionamos. Com a água também, já que a bebemos, nos lavamos com ela e com ela temos prazer em exercícios natatórios ou submarinos. Igualmente com a terra, pois caminhamos sobre ela, a cultivamos, a modelamos com nossas mãos. Mas com o fogo não podemos ter relação direta. O fogo é o único dos quatro elementos de Empédocles que nos afasta, pois sua proximidade ou contato nos faz mal. O único jeito de nos vincularmos a ele é através de um mediador. E esse mediador é o cigarro. O cigarro permite que nos comuniquemos com o fogo sem ser consumidos por ele. O fogo está num extremo do cigarro e nós no oposto. E a prova de que esse contato é estreito reside em que o cigarro arde, mas é a nossa boca que expele a fumaça. Por meio dessa invenção, completamos nossa necessidade ancestral de nos religarmos com os quatro elementos originais da vida. Essa relação foi sacralizada pelos povos primitivos mediante cultos religiosos diversos, terrestres ou aquáticos e, no que diz respeito ao fogo, mediante cultos solares. Adorou-se o Sol porque encarnava o fogo e seus atributos, a luz e o calor. Secularizados e descrentes, já não podemos mais render homenagem ao fogo a não ser através do cigarro. O cigarro seria assim um sucedâneo da antiga divindade solar, e fumar, uma forma de perpetuar o seu culto. Uma religião, em suma, por mais banal que possa parecer. Daí que renunciar ao cigarro seja um ato grave e dilacerante, como uma abjuração.

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Finalmente, a única coisa que gostaria de acrescentar (e já adianto que tô nem aí pro seu descrédito, leitor/a), é que, em algum momento, eu tive uma ideia muito, mais muito parecida com essa do Ribeyro. Eu imaginei que fumar era um ato de brincar com fogo, uma espécie de autoafirmação da dominação do fogo, no simples ato de trazer consigo o comburente e o combustível (não é bem isso, mas digamos que seja o cigarro e o isqueiro/fósforo) ao alcance das mãos.

Tanto que (digo isto um bocado envergonhado, é verdade, pois trata-se algo muito, mas muito possessivo, o lado feio da manifestação de um amor), se possível, pois seria problema de meus herdeiros, quando morrer, eu gostaria de ser enterrado (ou cremado, olha só que interessante!) com um maço de cigarros no bolso. E também um isqueiro ou caixinha de fósforos, por favor.

E “oxalá que chova café”:

13.

Daqui: http://www.avclub.com/article/15-things-kurt-vonnegut-said-better-than-anyone-el-1858 .

1. “I urge you to please notice when you are happy, and exclaim or murmur or think at some point, ‘If this isn’t nice, I don’t know what is.'”
1. “Eu peço com urgência para quando você perceber que está feliz, para que você exclame ou murmure ou pense em algum momento: ‘Se isso não é uma coisa bacana, então eu não sei o que é.'”

2. “Peculiar travel suggestions are dancing lessons from God.”
2. “Sugestões peculiares de viagens são como lições de dança de Deus.”

3. “Tiger got to hunt, bird got to fly; Man got to sit and wonder, ‘Why, why, why?’ Tiger got to sleep, bird got to land; Man got to tell himself he understand.”
3. “Tigres têm de caçar, pássaros têm de voar; homens têm de sentar e se perguntar ‘por quê? por quê? por quê?’. Tigres têm de dormir, pássaros têm de pousar; homens tem dizer a si mesmos que entendem das coisas.”

4. “There’s only one rule that I know of, babies—God damn it, you’ve got to be kind.”
4. “Crianças, só existe uma única regra que eu saiba, maldito deus, você tem de ser bondoso.”

5. “She was a fool, and so am I, and so is anyone who thinks he sees what God is doing.”
5. “Ela era uma tola, assim como eu, assim como qualquer um que pensa que sabe o que Deus está fazendo.”

6. “Many people need desperately to receive this message: ‘I feel and think much as you do, care about many of the things you care about, although most people do not care about them. You are not alone.'”
6. “Muitas pessoas precisam desesperadamente receber esta mensagem: ‘Eu sinto e penso o mesmo que você, me importo tanto sobre as coisas quanto você, embora muitas pessoas não se importam. Você não está sozinho.'”

7. “There are plenty of good reasons for fighting, but no good reason ever to hate without reservation, to imagine that God Almighty Himself hates with you, too.”
7. “Há uma imensidão de boas razões para lutar, mas nenhuma boa razão para odiar sem reservas, e nenhuma razão para imaginar que Deus Todo Poderoso estaria do seu lado nesse ódio todo.”
(Este foi o mais sofrido de traduzir, porque, na real, eu entendi errado o original… aí não há tradutor bom que consiga contornar burrice, né? E que Deus Todo Poderoso abençoe os revisores.)

8. “Since Alice had never received any religious instruction, and since she had led a blameless life, she never thought of her awful luck as being anything but accidents in a very busy place. Good for her.”
8. “Como a Alice nunca tinha recebido nenhuma criação religiosa, e como ela tinha tido uma vida sem culpas, ela nunca pensou sobre sua imensa sorte como alguma coisa que não fosse um bilhete premiado, apenas um em um milhão de chances. Bom pra ela.”

9. “That is my principal objection to life, I think: It’s too easy, when alive, to make perfectly horrible mistakes.”
9. “Esta é a minha principal objeção à vida: é tão fácil, enquanto a gente está vivo, cometer erros absolutamente horrendos.”

10. “Literature should not disappear up its own asshole, so to speak.”
10. “A literatura não deveria desaperecer enfiada no próprio cu, assim por dizer.”

11. “All persons, living and dead, are purely coincidental.”
11. “Todas as pessoas, vivas e mortas, são pura coincidência.”

12. “Why don’t you take a flying fuck at a rolling doughnut? Why don’t you take a flying fuck at the mooooooooooooon?”
12. “Por que você não vai tomar no cu no meio de uma rosquinha girando? Por que você não vai tomar no cu no meio de uma viagem à Luuuuuuuuuuuuua?”

14. “I have been a soreheaded occupant of a file drawer labeled ‘science fiction’ ever since, and I would like out, particularly since so many serious critics regularly mistake the drawer for a urinal.”
14. “Há muito tempo tenho sido uma dor de cabeça ao ocupar as prateleiras de ‘ficção científica’, e eu gostaria de sair de lá, particularmente porque muitos críticos sérios confundem regularmente essas prateleiras com um urinol.”

15. “We must be careful about what we pretend to be.”
15. “Precisamos ser cuidadosos com o que gostaríamos de parecer ser.”

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E eu não esqueci do nº 13 não:
13. “So it goes.”
13. “Coisas da vida.”

 

(Postagem atualizada em 12/02/16 com uma revisão de L.C., a quem agradeço muitíssimo.)