Sobre ética e moral (do mundo, das pessoas, de grupos do zap zap)

Participo de alguns grupos de zap zap, coleguinhas de faculdade, gentes dos tempos de colégio (tentaram me botar num de família, mas fugi) etc. tal. Algumas dessas interações são úteis e práticas, inegável, mas algumas vezes é duro de aguentar, pode ter certeza. E em alguns momentos, algumas situações, guardo um carinho moral. Tudo muito normal.

Numa certa vez, um outro amigo (que não tem nada a ver com essas coisas comunicativas internéticas) disse uma frase que me marcou: “O trânsito deixa a burrice das pessoas patente”. Porque no trânsito, presos no tráfego ou até correndo, dirigindo ou sendo conduzido, nós convivemos em sociedade por meio de anteparos: carros, motos e ônibus. Normalmente esses intermediadores refletem nossas finanças, não necessariamente nossas personalidades, mas o que interessa aqui é podem nos tornar algo diferente de ‘peasants’ (“pedestres” na língua inglesa, que é a mesma palavra para “camponeses” e para os “peões” do xadrez).

Não há a menor dúvida de que a internet (e/ou os espertofones) causa(m) esse mesmo efeito.

*

Não necessariamente que seja a burrice de convivas que venha à tona num grupo de zap zap, mas emerge algo que não são eles, pelo menos não inteiramente. Ninguém é capaz de encarar um grupo de dez pessoas pessoalmente (ou até uma pessoa vs. duas ou três). Mas na internet, anonimamente ou não, pelo fato de não encarar pessoalmente ninguém, há tipo um turbo de coragem (ou sei lá o quê, teimosice talvez) que tende impelir às pessoas a fazer/dizer coisas as quais elas pensariam duas (três, quatro…) vezes antes de fazer/dizer pessoalmente.

Não sou isento disso, é claro, mas busco ter consciência e ser coerente: dizer coisas que também diria pessoalmente. E mais: busco dizer coisas que eu igualmente diria cara a cara e socialmente, numa roda de conversa (ou sala de aula, por exemplo). Tento.

*

Estou tomando um grupo do zap zap apenas como uma amostra social, não tem nada de especial numa agremiação de pessoas como essa. Não são piores nem melhores que ninguém; e nalgumas ocasições, de certa forma, são especiais pra mim, mas isso também não é garantia de nada.

Entretanto, alguns comentários me deixam abismado. Ou melhor: fico abismado com o que eu vejo POR TRÁS de certas declarações.

Não, não tenho Olho de Thundera, não tenho visão além do alcance, mas eu mais ou menos gosto e conheço essas pessoas, convivo/convivi com elas. Então faço um exercício simples de solidariedade, de amizade (ou tentativa): busco ver com os olhos delas e pensar com a cabeça delas. Claro que é extremamente limitado e imperfeito, mas é o possível. Isso é tentar, explicitamente, ter mais de uma ética.

Agora vamo lá, que tá na hora, né: ética tem a ver com valores pessoais, moral tem a ver com valores sociais. Ética tem a ver com posturas pessoais, posições, visões de mundo, tem a ver com princípios. Moral tem a ver com a tradição, com a cultura de uma sociedade ou grupo (ou até grupelho), com nossas reações a valores externos, impostos e/ou trazidos de ancestrais (leis ou costumes, por exemplo). Ética é de dentro pra fora. Moral é de fora pra dentro. Ética pode variar de pessoa para pessoa, moral pode variar de povo para povo.

É possível uma única pessoal ter mais de uma ética. Um exemplo clássico: não devolver o troco a mais na feira (pra embolsar etc. e tal), mas devolver uma carteira ou mala cheia de dinheiro encontrada na rua. No entanto, a moral só varia se você mudar um grupo maior de pessoas: um grupo de gente que acha normal não pagar gorjeta a gorçons (e/ou que não dizer ‘obrigado’ e ‘por favor’ a garçons), e outro grupo que acha inadmissível não fazer essas coisas. Daí você samba conforme a música.

Contudo, alguns desses convivas se revelam absurdamente assertivos, convictos, unos. Talvez isso seja saudado como uma coisa boa e encante a alguns: “Lá vai uma pessoa coesa!”.

Para mim, me deixa de estupefato.

Agora cito (de memória) Herman Hesse, um trechinho do livro O lobo da estepe: “Dentro de um peito não podem conviver um lobo e um homem. Não porque um peito seja muito pequeno para comportar um homem e um lobo, mas sim porque um peito é muito grande para comportar apenas um lobo e um homem”. [Grifos meus.]

Mano, como é possível certas pessoas se portarem como se tivessem apenas uma ética, como se fossem regidas unicamente pela moral (que por sua vez, é a moral de apenas um grupo, ou grupelho)?

Isto é uma definição de moralista.

Isto é componente de uma visão simplificadora, dicotômica, maniqueísta. De “o bem contra o mal”, de “nós contra eles”, do “certo contra o errado”.

E obviamente que nós somos/estamos certos e eles, errados, não é mesmo?

Logo, portanto, por conseguinte, algum incauto poderia dizer: “nós somos éticos, eles são moralistas”.

*

Porém, para fins práticos, buscar guiar-se por coisos assim, sinceramente, deve ser atraente: aparentemente o certo e o errado ficam mais límpidos.

Tudo o que fontes “confiáveis” dizem, nós acatamos e seguimos, pois se trata de fontes confiáveis (e iluminadas pela luz da razão/deus, sei lá). O outro lado da moeda, por lógica, apontaria que tudo o que dizem fontes “não confiáveis” se trata da “esgotosfera”.

O “ciclo de compreensão das coisas” ficaria mais curto. Mais cômodo, talvez. E olha que coisa atraente: tornar nossa visão de mundo mais cômoda, mais conveniente!

Daí o Kurt Vonnegut escreve na pg. 220 da edição de bolso da LP&M de Café-da-manhã dos campeões mais ou menos o seguinte: “para fazer com que as pessoas as pessoas acreditem que a vida tem personagens principais, personagens coadjuvantes, detalhes importantes, detalhes desimportantes, lições a serem aprendidas, desafios a serem superados, e um começo, um meio e um fim. De acordo que eu me aproximava do meu aniversário de 50 anos, eu estava ficando cada vez mais furioso e abismado pelas decisões idiotas tomadas pelos meus compatriotas [Vonnegut é norte-americano, mas isso que ele tá falando é universal]. E então, subitamente, eu passei a sentir pena deles, ao passo que entendi que o quão inocente e natural era para eles se portar de forma tão abominável, com resultados tão abomináveis: eles estavam fazendo o melhor para viver como pessoas inventadas em livros [e filmes e letras de músicas e programas de televisão]. Esta é a razão pela qual norte-americanos atiram uns nos outros com tanta frequência: um recurso literário conveniente para terminar contos e livros.” [grifo meu, meu recurso linguístico para combinar como o ‘conveniente’ lá do parágrafo anterior].

Parece uma forma de “aplainar o terreno”, de limpar a área. Algo tido como bom, atribui-se (por uma convenção doida que estou adotando agora) o valor 1. Se algo é tido como ruim, atribui-se 0. E assim enxerga-se o mundo como máquinas binárias, como os tão admirados computadores ou celulares.

Obviamente, não estamos percebendo que, ao buscarmos nos portar como máquinas (por mais rápidas e eficiente e úteis que sejam), estamos nos desumanizando. [Embora o Frederico Nietzsche discorde, mas isso é papo pra outra hora.]

Eu até poderia chegar a um sujeito (ou sujeita) desses e dizer: “pessoa, sinto em te dizer, mas o buraco é mais embaixo: nenhum valor é único e válido por si só, nenhuma sociedade é perfeita (no sentido de ‘perfazer‘). Só por meio de comparações, às vezes de contrastes, que é possível se situar. E mesmo assim seria como fincar bandeira numa rolha de cortiça no meio de uma tormenta”.

Mas aí ele/a/x vai me achar um louco, obviamente.

E vai me rechaçar furiosamente: “como você ousa questionar meu sistema em perfeito equilíbrio, minha visão de mundo, ou melhor: a visão de mundo correta, seu esgoto?!?!”.

Eu ‘ouso’ te desafiar, eu ouso tentar te quebrar, te tombar, mas de forma pacífica e fraternal, porque te quero bem, e principalmente porque, moço/a/x, já não sou mais assim. Já não sou perfeito.

Porque eu cresci, pessoal, social, fraternalmente.

Um outro amigo (este sim frequentador desses rolês internéticos, mas com moderação) certa vez me elucidou o mito do dr. Fausto (de Goethe, de Mann, da humanidade): “uma vez que você cruza essa linha, não tem mais volta”. No caso do Fausto, como é sabido, é feito um pacto com o diabo, em troca de conhecimento/clarividência, de poder. É o mesmo mito da “maçã do conhecimento” (digamos assim) oferecida por Eva a Adão, depois de ser seduzida pela serpente.

No meu caso, pobre de mim, nem o diabo me fez proposta alguma, nem eu consegui clarividência/conhecimento sobre o mundo, as coisas, as pessoas. Mas eu mudei de patamar. Uma única ética ou moral do mundo, das coisas, das pessoas, não me basta mais. Não me perfaz.

Meu peito é grande demais para apenas isso.

*

“Mas nem no perímetro da vaidade conseguimos ter paz. Tem gente que briga pois acha que a própria verdade é a mais absoluta de todas.”, disse um.

Não, mano, não, mano: não, mano! Você tá entendendo errado: não discordo de você porque tenho certeza das minhas ideias, porque tenho convicções convictas. Eu discordo de você justamente pelo motivo contrário: porque NÃO tenho convicção de porra alguma. Porque sou e estou aberto a conversar, a dialogar, porque eu permito que as pessoas igualmente discordem de mim, que pessoas me convençam de que estou enganado.

Se eu não discordar, se eu não discutir, não me apresento aberto. Encolho o meu peito.

E quer uma dica? Aproveite, bixo, me pague um café/cerveja e conversemos. Desde que você converse comigo da mesma forma como estou disposto a conversar contigo.

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