“Só para fumantes” (incluída minha primastral, claro)

Na ausência de um melhor entendimento sobre meu parentesco com uma moça muito bacana que conheci mais ou menos recentemente, a partir de agora agora vou ‘batizá-la’ de “minha primastral” (prima astral). Até onde sei, não sou parente de sangue dela, mas isso pouco importa. O que importa é que ela me deu de presente* um livro esplêndido, intitulado justamente “Só para fumantes”, de um peruano chamado Julio Ramón Ribeyro. Fumante como Braga, discípulo de Vonnegut, louco como Furtado e guerreiro como Raul que sou, não tenho palavras para agradecê-la por trazer isso pra minha vida.
Brigado, moça.

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* Na ausência de um melhor entendimento sobre se essa moça me emprestou ou se realmente me deu esse livro de presente, tal como a ‘batizei’ de “primastral”, a partir de agora esse livro está ‘batizado’ de “meu livro”. Mas prontamente eu empresto de volta se ela pedir. Ou até mais: até compro uma outra cópia e dou de retro-presente pra ela, mas creio que este exemplar não deixará de ser minha posse (em síntese, este ‘asterístico’ inteiro aqui é um migué danado, tô querendo enganar quem?).

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Os estudantes [universitários em uma biboca perdida no interior do Peru chamada Huamanga, tal como TTB ou SJC], quase todos do lugar ou de províncias vizinhas, eram jovens ignorantes, sérios e estudiosos, convictos de que bastava ter um diploma para ter acesso ao mundo da prosperidade.

Mas isso não tem nada que ver com nada, exceto que achei uma passagem incrivelmente atual: uma descrição absurdamente precisa de coleguinhas da Unitau.

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(Agora sim:)

Que tipo de recompensa eu obtinha do cigarro para ter sucumbido a seu império e me transformado num servo curvado a seus caprichos? […] [J]á que fumar não me produzia euforia, nem lucidez, nem estados de êxtase, nem visões sobrenaturais, nem suprimia a dor ou a fadiga.
[…]
Não me restou outro remédio senão inventar minha própria teoria. Teoria filosófica e absurda, que menciono aqui por pura curiosidade. Imaginei que, segundo Empédocles, os quatro elementos primordiais da natureza eram o ar, a água, a terra e o fogo. Todos eles vinculados à origem da vida e à sobrevivência da nossa espécie. Com o ar estamos em contato permanente, já que o respiramos, o expelimos, o condicionamos. Com a água também, já que a bebemos, nos lavamos com ela e com ela temos prazer em exercícios natatórios ou submarinos. Igualmente com a terra, pois caminhamos sobre ela, a cultivamos, a modelamos com nossas mãos. Mas com o fogo não podemos ter relação direta. O fogo é o único dos quatro elementos de Empédocles que nos afasta, pois sua proximidade ou contato nos faz mal. O único jeito de nos vincularmos a ele é através de um mediador. E esse mediador é o cigarro. O cigarro permite que nos comuniquemos com o fogo sem ser consumidos por ele. O fogo está num extremo do cigarro e nós no oposto. E a prova de que esse contato é estreito reside em que o cigarro arde, mas é a nossa boca que expele a fumaça. Por meio dessa invenção, completamos nossa necessidade ancestral de nos religarmos com os quatro elementos originais da vida. Essa relação foi sacralizada pelos povos primitivos mediante cultos religiosos diversos, terrestres ou aquáticos e, no que diz respeito ao fogo, mediante cultos solares. Adorou-se o Sol porque encarnava o fogo e seus atributos, a luz e o calor. Secularizados e descrentes, já não podemos mais render homenagem ao fogo a não ser através do cigarro. O cigarro seria assim um sucedâneo da antiga divindade solar, e fumar, uma forma de perpetuar o seu culto. Uma religião, em suma, por mais banal que possa parecer. Daí que renunciar ao cigarro seja um ato grave e dilacerante, como uma abjuração.

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Finalmente, a única coisa que gostaria de acrescentar (e já adianto que tô nem aí pro seu descrédito, leitor/a), é que, em algum momento, eu tive uma ideia muito, mais muito parecida com essa do Ribeyro. Eu imaginei que fumar era um ato de brincar com fogo, uma espécie de autoafirmação da dominação do fogo, no simples ato de trazer consigo o comburente e o combustível (não é bem isso, mas digamos que seja o cigarro e o isqueiro/fósforo) ao alcance das mãos.

Tanto que (digo isto um bocado envergonhado, é verdade, pois trata-se algo muito, mas muito possessivo, o lado feio da manifestação de um amor), se possível, pois seria problema de meus herdeiros, quando morrer, eu gostaria de ser enterrado (ou cremado, olha só que interessante!) com um maço de cigarros no bolso. E também um isqueiro ou caixinha de fósforos, por favor.

E “oxalá que chova café”:

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