Bipolar

Ou: “Obrigado Fernanda”

(Funciona assim, aperta o play e ouça as músicas enquanto você lê, caro leitor/a. É a trilha sonora deste texto: http://grooveshark.com/playlist/2015+02+06+Gata+e+o+poder/104128871 .)

O livro Parafusos (Marbles, no original) da Ellen Forney, na minha opinião, não é ótimo, embora seja bom e principalmente corajoso e honesto. É preciso muito sangue frio para falar de si próprio como algumas mulheres maravilhosas andam fazendo nos quadrinhos, como Alison Bedchel (Fun Home e Você é minha mãe?) e Marjane Satrapi (Persepolis e Frango com ameixas, este último eu não li, mas boto fé que seja bom também). Se no cinema faltam diretoras (o machismo ainda reina, esta é a explicação), nos quadrinhos as mulheres estão (mais) em pé de igualdade. E elas brilham.

Não conhecia as tirinhas da Forney, uma série de uns 20 anos, Eu tinha 7 anos em 75 (assim como li pouquíssimo do Dykes to Watch For, algo como “Sapatas notáveis”, da Bedchel), então tudo começou numa mensagem da minha bródinha Fernanda, indicando uma reportagem de um site em inglês reunindo os quadrinhos mais importantes sobre mulheres, http://www.womenyoushouldknow.net/nine-graphic-novels-every-girl-should-read/ . Não só escrito POR mulheres, pois tem o Ghost World do Daniel Clowes (que virou um filme beeem médio, com a Scarlett Johansson novinha, mas a outra mina, a esquisita, para o meu gosto, é a mais gatinha do filme, a Thora Birch). A Fernanda ainda notou: “cheque o MArbles” (com direito a esta tipografia própria).

Chequei. Gostei. É um livro sobre uma moça bipolar, o subtítulo já é cativante: “Mania, depressão, Michelangelo e eu”. E o tradutor, Marcelo Brandão Cipolla, mandou muito bem ao escolher o nome “Parafusos”, pois em inglês a expressão (novamente, obrigado Fernanda), “loose your marbles” é algo como “ficar com um parafuso a menos”, ou simplesmente enlouquecer.

O livro é bem detalhista, tipo um diário de uns dez anos dos comportamentos da autora antes do diagnóstico, o começo e a maturidade do tratamento (não tem fim, é uma doença incurável). Muitas vezes serve até como guia médico/psiquiátrico/psicanalítico sobre o transtorno bipolar. Isso é muito útil tanto para os que têm essa doença, como para quem convive com eles e, talvez, para a sociedade em geral. Para explicar/falar, para lidar com isso, é normal ser/ficar doente nos tempos de hoje. Melhor: é normal ser/ficar doente desde sempre. Nós, bípedes falantes, somos muito muito frágeis (na real, assim como qualquer bicho; vida é algo frágil). Mas o tempo todo tentamos nos tornar, ou apenas parecer, fortes. Não somos. No mínimo SEMPRE parecemos ter um parafuso a menos.

Contudo, talvez esta intensa “obsessão médica” da autora sacrifique um pouco da narrativa, por vezes “as páginas de sintomas e afins” são mais interessantes do que “as páginas da historinha da Ellen”. Este talvez seja o grande defeito da obra. E o traço, algo simplista para o meu gosto, também não é um ponto alto, embora a reprodução do caderninho de ilustrações da autora, com desenhos de quando em depressão, isso é sublime!

E ela ainda pira na batatinha ao ficar se perguntando: “sou uma típica artista louca?”, “tem alguma relação entre arte e loucura?”, arte, arte, arte, ah, a arte! Moça, será que você poderia encher menos o saco e desenhar mais? Seus quadrinhos são bons, que mais você quer ouvir? Agora não apurrinha, por favor…

Mas mesmo assim: eu queria casar com a Ellen Forney! E sim, eu sou bipolar, e há pelo menos duas páginas inteiras da autora explicando sobre como contar e a reação das pessoas ao ouvir tal notícia. É algo sério, meio grave, piora com o envelhecimento, mas que é conhecido há algum tempo e é razoavelmente bem tratado. As mulheres sabem muito bem o que é ter “alterações cíclicas de humor”: TPM. Oka., deve ser bem mais forte que isso (na real, eu lá sei como é ficar de chico?), mas acho que é mais uma questão de como conviver com isso. Sou dependentes de remédios e acompanhamento médico até eu morrer. Mas somos dependentes de sabonete e pasta de dente, além de acompanhamento médico e dentário até morrermos. Não muda tanto. Procuro pensar que é normal ser maluco, de um jeito ou de outro.

O Livro na minha mesa de trabalho

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