Página 114 (início do capítulo 12)

Para Laura Chagas

Kilgore Trout estava longe, mas diminuindo constantemente a distância entre ele e Dwayne. Ainda estava no caminhão chamado Pirâmide. Estava atravessando uma ponte batizada em homenagem ao poeta Walt Whitman. A ponte estava encoberta de fumaça. O caminhão estava prestes a se tornar parte da Filadélfia. Uma placa ao pé da ponte dizia o seguinte:

VOCÊ ESTÁ ENTRANDO AGORA NA CIDADE DO AMOR FRATERNO

Na juventude, Trout teria zombado da placa sobre fraternidade – instalada na beirada de uma cratera  de bomba, como qualquer um podia ver. Mas sua cabeça não abrigava mais ideias de como as coisas poderiam e deveriam ser no planeta, em oposição a como realmente eram. Pensava que havia apenas um jeito de a Terra ser: do jeito que era.

Tudo era necessário. Viu uma velha mulher branca catando numa lata de lixo. Isso era necessário. Viu um brinquedo de banheira, um patinho de borracha, atirado de lado na grade que cobria uma galeria de águas pluviais. Ele tinha que estar ali.

E assim por diante.

Eu comprei esse livro, Café da manhã dos campeões, do Kurt Vonnegut Jr., edição de bolso da L&PM, justamente pra copiar esta passagem (além da página 220, claro). A Laura me emprestou o exemplar dela quando eu primeiro li.

Na real, eu vivo mal. Não que as minhas condições de vida sejam ruins, muito pelo contrário, são muito boas, boas até demais, tão boas que eu sou meio vagabundo pra correr atrás das coisas. Eu vivo uma tranquila vida com tudo que uma pessoa de classe mérdia poderia ter: moro sozinho numa quitinete de 20 m², num bairro bom do Rio, tenho uma tevê de tubo de 14” (lembram do tubo de imagem?), com cinco canais de tevê aberta, um cpu modelo básico de 2006, com Linux, um celular do séc. XX, com jogo da cobrinha, claro. Não tenho carro nem bicicleta, mas tenho pernas e ando de ônibus e metrô.

Então, o que acontece comigo é que eu não sei viver. Isto é, eu não sei viver segundo o modelão: acordar cedo, dormir todos os dias no mesmo horário, dedicar umas 12 horas por dia ao trabalho (uma hora pra ir, uma pra voltar, uma para o almoço e frequentemente mais de oito no escritório), querer ganhar bem, querer pegar todas as minininhas, querer ter carro, ter iPod, viajar à Europa etc. Eu acho tudo isso meio chato e desgastante. E acho que é tipo uma imposição a gente ter de gostar/querer tudo isso. E, como diria Leo Babauta (traduzido pela Ju aqui: http://lobjettrouve.wordpress.com/2011/06/27/libertando-se-das-correntes-do-consumismo/ ), “o engraçado é que há milhões de alternativas”.

E eu não tenho medo da decadência, talvez porque já tenha estado pior do que estou hoje. E por entender que estou mais ou menos no meu auge: tenho muita liberdade, não tenho posses ou dinheiro pra defender, não tenho família ou pessoas que dependam de mim (meus pais estão ficando bem velhinhos, cada vez mais vou precisar ficar atento a eles, mas isso é normal), meu vigor físico ainda é bom (não é como aos 20 anos, pois faz dez anos que fumo, mas ainda dá um caldo, ehehe), moro sozinho e numa cidade bacana.

Depois, acho que vou “passar de fase no videogame”, vou viver um período diferente, mas que também pode ser bom: devo crescer profissionalmente (mas isso quase não conta), devo ganhar melhor (mas isso quase não conta), devo casar e ter filhos (isso conta, e muito; mas se eu não casar e não tiver filhos, paciência, minha vida será outra, mas também pode ser de boa). E no final, vou decair bastante, devo aposentar, ficar (mais) careca, (mais) feio, (mais) esquecido, talvez tenha umas doenças sinistras, tipo câncer, enfim, vou me tornar um velhinho. E vou jogar muito buraco. Pô, precisa mais que isso?

Bônus: clique na imagem para uma surpresinha escondida. (Ou: Cadê a imagem que tava aqui? Então leia isso aqui: http://mundo-editorial.blogspot.com/2011/06/como-escrever-com-estilo-kurt-vonnegut.html )
Bônus: clique na imagem para uma surpresinha escondida.
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