Conservadorismo reinante

Saca só (tô misturando dois ditados, mas dá pra entender): “Se você não é incendiário aos 20, não tem coração; se não é bombeiro aos 40, não tem cabeça”.

E a conta que não fecha na minha cabeça é: como se opera essa mudança?

Eu vejo por amiguinhos joseloides (do colégio e/ou do bairro), ou coleguinhas da faculdade, que pensavam de um jeito no primeiro ano (ou ao menos se declaravam pensar de um jeito) e depois, no quarto ano, ou no primeiro ano de formado (tanto faz), passaram a pensar diferente.

Isso é crescer/amadurecer/etc.?

Peraí, vou detalhar esta história: pelo menos pra mim, amadurecimento tem bem mais a ver com ações, não com pensamentos. É como bem lembrou um amiguinho do PFL (oka., ele não é do PFL, mas por vezes, por várias vezes, parece ser), “obedece ordens quem tem juízo na cabeça e contas a pagar”.

“Obedecer” faz parte do universo das ações. Mas pensar “que chefe escroto, que tarefa idiota que eu estou fazendo, que empresa cretina para a qual eu trabalho” faz parte do universo dos pensamentos. E esses universos não precisam necessariamente ser opostos e conflitantes. Afinal, o que une essas pontas é justamente o indivíduo, o amiguinho, o coleguinha.

Acho que deve ter gente que não suporta a ideia de termos (e vivermos) umas contradições (algumas delas, é verdade, contradições monstro). Ao meu ver, reconhecer que essas coisas existem, e aprender a conviver com elas, é amadurecer. E amadurecer bem.

Oka., eu até consigo imaginar alguns motivos para essas pessoinhas aderirem ao conservadorismo reinante:

  • Comportamento de ovelha. Acontece o tempo todo, e não é necessariamente ruim. Há um belo argumento em defesa do comportamento de ovelha: dá uma grande certeza de ser uma cosia segura. E muitas vezes, de fato, é.
  • Olhar para o lado bonito da vida. Exemplo: iPhone/iPad é maior massa. E é mesmo. Conforto, rapidez, praticidade etc. são sedutores. Mas quanto custa pra alcançar isso? Se ralar 14 horas por dia no trampo? Tudo bem! Pisar na cabeça do coleguinha? Tudo bem! (Agora uma coisa um pouquinho mais complexa e difícil de se ver:) Ser bacaninha, bom moço, comer granola no café da manhã, andar de bicicleta na ciclovia aos domingos, mas pisar na cabeça do chinesinho que fabrica seu sapato? “Ué, mas eu nem sabia que eu tava fodendo a vida alheia!” Pois é, está. Não acredita? VejE isso aqui:

    http://www.youtube.com/watch?v=cdrCalO5BDs
    E isso aqui:

    http://www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k

    (Embora este último tenha uns momentos até engraçados involuntariamente: “this is the third world…”, sendo que ela queria dizer algo como “este é o terceiro mundo, que não é o nosso mundo (ufa!), e que parece não ficar na Terra, mas fica (argh!)”.)

(Continuando:)

  • Impunidade e tapinhas nas costas. Hmmm, vamos acrescentar umas aspas aqui: “impunidade”. O que eu tô falando é sobre “a impunidade ao mudar de posição/pensamento”. Todo mundo é crescidinho e tem direito de mudar de opinião. Fato. (Pelo menos a gente tem uma fé quase religiosa nisso, fé na democracia, liberdade de expressão, direitos humanos, blá blá blá). Então, por que não mudar? “Ninguém tem o direito de me cobrar nada se eu antes eu dizia coisas pertinentes e agora só falo groselha.” Fato. “E eu até ganhei um sorriso de satisfação do chefe.” (É o que dizem: tem tara pra tudo…)
  • Quanto mais se tem, quanto mais se acumula, quanto mais se tem apego ao rico dinheirinho, ao iPhone mais mUderno, ao carro do ano, ao filme ou livro mais amado do último festival de Cannes, mais se tem a perder. E é bizarro pensar que alguém tenha algo a perder aos vinte e tantos anos. Vai perder o quê?
  • (Por fim) Sensação de mudança. Sensação de segurança. Sensação de trocar a “incerteza da possibilidade (ou não) da felicidade, por um infelicidade constante” (acho que o Froide foi quem disse isso). E se nessa “infelicidade constante” tiver conforto, se for em pílulas, quanto mais espaçadas e mais disfarçadas de AAS infantil, melhor: “Putz, que sujeito de sorte eu sou! Realmente, não tenho do que reclamar!”.

*

Moral da história: amiguinhos, coleguinhas, pessoinhas, já pensaram em trocar seus intelifones (minha tradução para pt_BR de smartphone) por contradições?

Ps. Tava conversando com o meu pai sobre a escrita deste texto e acho que ele matou a pau a minha dúvida: “Bruno, você está partindo de um princípio errado. Você está partido do princípio que as pessoas são livres. No mercado de trabalho eles não querem a sua mão-de-obra, eles querem a sua adesão.” Grande seu Conde!

Alienópolis 2 (Andreia, não tire o site do ar, senão cai a imagem...)
Imagem que vem muito bem a calhar com o tema do texto. Por A. C. Andrade ("A" de "Andreia", o "C" eu ainda não sei o q significa). Aqui, ó: http://tirinhas.andreiandrade.net/2010/08/alienopolis-2/

[Eu tentei formatar a porra linda desta imagem por uns 15′, dá pra ver que eu não consegui, né? Vai ficar assim mesmo.]

Anúncios

2 comentários sobre “Conservadorismo reinante

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s