Do lado de fora

Uma vez um grande amigo me disse que nós deveríamos ter o direito de não produzir. Ter o direito de ficar coçando, morgando, de jogar videogame o dia inteiro, de não produzir nada, nem “artisticamente”, nem profissionalmente, nem financeiramente. Seria praticamente o direito à depressão. O direto de viver fora do calendário, ou como diria um adorável capixaba, “de ficar trancado do lado de fora da vida” (se bem que o Braga não recomendava este autoexílio). Mas o Tiago, sabiamente, usou a conjugação verbal no futuro do pretérito, “deverÍAMOS”, enquanto bebíamos cerveja, tínhamos papos existencialistas e paquerávamos as garotas (e, é claro, não fazíamos nada). É óbvio que a sociedade não nos permite tal luxo. Se ficamos parados, o tempo, a falta de grana, a encheção de saco de nossos pais amigos e/ou namoradas nos engole. Outras pessoas que dependem direta ou indiretamente da gente ficam à mercê.

Em outra ocasião um professor da faculdade de jornalismo me falou uma máxima simples, que eu talvez poderia ter ouvido da boca de outro, mas foi o Fuser quem a proferiu: “o jornal sempre fecha” (ou algo do tipo). Não interessa se a edição está ruim, incompleta, cheia de mentiras e/ou inverdades, se tem muitos calhais, um jornal tem de fechar. Sempre e todos os dias. Como não poderia deixar de ser, o meu professor também nos ensinou (ou pelo menos se esforçou neste sentido) muitas outras coisas. Contou histórias de bastidores, nos indicou o que deveria ser escrito em determinados tipos de texto, nos deu dicas para como obter certas informações em entrevistas etc. Enfim, informações técnicas do mundinho do jornalismo. Dentre esses ensinamentos, sinceramente, eu pouco me recordo, tanto porque pouco os pus em prática, como também pouco a pouco fui me desinteressando do pelo fazer jornalístico – tirando estas recaídas em forma de crônicas.

O que ficou, para mim, não foi a informação, foi o conhecimento, a sabedoria. Porém, como diria o Hesse pela boca do seu Sidarta, a sabedoria não pode ser transmitida (logo, não pode ser ensinada). E eu completaria, ela só pode ser aprendida. Parece um paradoxo, mas é simples explicar: o verdadeiro conhecimento (por mais simples e pequeno que seja) tem de ser descoberto, captado, não vem pré-fabricado de uma fonte externa. Uma frase solta, e talvez despretensiosa, de um professor me incitou, tal qual a reflexão de um amigo durante mais um de nossos massantes e prazerosos papos existencialistas.

E neste momento eu uno as duas pontas: como solucionar a situação em que deveríamos nos permitir não produzir sendo que “o jornal sempre fecha” (“a vida continua”, “temos sempre de passar a fase do videogame”, “a roda gira” e muitas outras frases que poderiam figurar aqui)?

Uma vez um grande amigo me disse que nós deveríamos ter o direito de não produzir. Ter o direito de ficar coçando, morgando, de jogar videogame o dia inteiro, de não produzir nada, nem “artisticamente”, nem profissionalmente, nem financeiramente. Seria praticamente o direito à depressão. O direto de viver fora do calendário, ou como diria um adorável capixaba, “de ficar trancado do lado de fora da vida” (se bem que o Braga não recomendava este autoexílio). Mas o Tiago, sabiamente, usou a conjugação verbal no futuro do pretérito, “deverÍAMOS”, enquanto bebíamos cerveja, tínhamos papos existencialistas e paquerávamos as garotas (e, é claro, não fazíamos nada). É óbvio que a sociedade não nos permite tal luxo. Se ficamos parados, o tempo, a falta de grana, a encheção de saco de nossos pais amigos e/ou namoradas nos engole. Outras pessoas que dependem direta ou indiretamente da gente ficam à mercê.
Anúncios

Um comentário sobre “Do lado de fora

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s