Como diria uma música do Space, “Me and You Versus the World” (a pedidos, versão enxuta)

“O Mutations é o melhor disco do Beck.”
Michael: “Claro que não! É o Odelay.”

“Qual é o melhor disco do Beck?”
Zerbo: “Aquele cinzinha é muito bom, mas é esse que tem ‘New Polution’? Não, né? Então, é esse quem tem ‘New Polution’. Mas eu também gosto pra caralho do Midnight Vultures. Fico entre esse dois, velho.”

“Obviamente, o Mutations é o melhor disco do Beck.”
Katita: “Você vai ter que provar.”
“Claro que não!”
Katita: “Você vai ter que provar faixa a faixa porque esse disco é melhor que os outros.”

***

Claro que não, Katita. EU acho que é o Mutations e pronto. E está achado. Não é porque o disco já começa com a impactante, “Cold Brains”, certamente um dos pontos altos, cheia de camadas e efeitos (como diria um professor de jornalismo, “laranja boa a gente põe na frente”), segue com a linda balada melancólica “Nobody’s Fault But My Own”, continua com a mezzo folk, mezzo moderninha, “Lazy Files”, passa para uma “paródia de algo que eu não sei o que é” com “Cancelled Check”, cria um ponto de marasmo e relaxamento com “We Live Again”, para chegar ao ápice justamente na faixa 6, de um álbum com 11 músicas, com “Tropicalia”, nitidamente com influência de Mutantes e Caetano, depois torna a trazer uma balada calcada em cordas com “Dead Melodies”, daí ele começa a levantar a bola de novo com um ritmo blueseiro em “Bottle of Blues”, para desaguar em “O Maria”, outra pérola do jeito Beck-esquisto-mas-legal-de-ser, e então ele passa a preparar o final, com outra balada “Sing It Again”, ok, a música mais fraca do disco, e termina com “Static”, uma psicodelia estranha.

Tudo faz um sentido junto, em contraponto à grande parte da produção do Beck, pois ele sempre foi um compositor de músicas boas e fortes, mas que custam a formar um conjunto tão harmonioso. O Odelay tem faixas ótimas, talvez melhores que muitas das músicas desse disco, mas que são isoladas, parecem uma coletânea.

***

Entretanto, a questão não é essa. O que me impele agora é: o que fazer quando a gente tem uma opinião que basicamente o resto do mundo discorda? Eu vivo me sentido assim. Eu sou super de esquerda pra caralho, acho o comunismo supremo, mas como a mesma Katita disse, “é preciso uma evolução espiritual muito grande para que isso aconteça”. E o que fazer aqui em SP, o ninho arraigado dos tucanos?

Não me aguento calar quando ouço barbaridades políticas ou odes à cidade de São Paulo, que, convenhamos, é uma porcaria de lugar para se morar. Ok, tem muitas coisas legais aqui, coisas que esse país provinciano e pouco escolarizado não difunde pelos interiores, de modo geral, relativas ao nosso mundinho hype-cultural (que tendemos a crer, erroneamente, ser imprescindível). Eu já me ulcerei muito tentando ficar quieto quando ouço absurdos do tipo “por que você não compra um carro?”. Porque eu acho que a maior parte da humanidade devia andar de transporte público e não enfiar nas ruas já entupidas mais uma lataria de 900 kg pra transportar uma pessoa de 60/70 kg! Oras, bolas, pipocas!

Mas de tanto levar tensão pra casa, eu acabo soltando umas pérolas truncadas como num dia em que cheguei atrasado ao trabalho (uma quinta-feira) porque tinha ido à balada no dia anterior: “Nossa, o que aconteceu com você? Ficamos preocupadas, já são 9h40”. Com a voz enrugada e rouca, respondi: “Me diverti horrores ontem à noite.” E fui pegar um café. Tá vendo? Coitada da moça que não merecia ouvir isso logo de manhã. E que trouxa que eu sou ao falar umas asneiras dessas, campeão de perder pontos por respostas atravessadas no mundinho corporativo (e haja chocolate e gentilezas para tentar remediar a situação).

Nos últimos tempos, estou inclinado a expor meu(s) verdadeiro(s) ponto(s) de vista, mas seletivamente. Quero que os outros pensem algo tipo: “Ele é tão legal, uma pena que não seja tão esquisito. Mesmo depois de tudo o que aconteceu, ainda acha que o Lula é o melhor presidente que o Brasil já teve?! Um cego em política.” E a recíproca é verdadeira: eu acho que devemos nutrir profunda ojeriza à certas opiniões, como votar no Serra e/ou Kassab, mas mesmo assim temos de nos esforçar para respeitar as pessoas que as emitem. Algo como: “Eu acho uma completa idiotice alienada a sua visão política, mas eu respeito todas as outras coisas da sua pessoa”. Mas mesmo assim vou manter a tática dos chocolates.

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