Como diria uma música do Space, “Me and You Versus the World”

“O Mutations é o melhor disco do Beck.”
Michael: “Claro que não! É o Odelay.”

“Qual é o melhor disco do Beck?”
Mancha: “Os louros sempre vão para o Odelay, mas o The Information também é foda”
“Mas, Mancha, qual você acha que é o melhor melhor?”
Mancha: “Ah, o Odelay mesmo.”

“Qual é o melhor disco do Beck?”
Zerbo: “Aquele cinzinha é muito bom, mas é esse que tem ‘New Polution’? Não, né? Então, é esse quem tem ‘New Polution’. Mas eu também gosto pra caralho do Midnight Vultures. Fico entre esse dois, velho.”

“Qual o melhor disco do Beck?”
Alice: “Eu não sei os nomes, qual tem ‘Where It’s At’? É o mesmo que tem ‘Looser’, né? É esse.”
“Não, o que tem ‘Looser’ é o Mellow Gold. O que tem ‘Where It’s At’ é o Odelay
Alice: “Então, acho que é esse.”
“Qual?”
Alice: “O que tem ‘Where It’s At’.”

“Obviamente, o Mutations é o melhor disco do Beck.”
Katita: “Você vai ter que provar.”
“Claro que não!”
Katita: “Você vai ter que provar faixa a faixa porque esse disco é melhor que os outros.”

***

Claro que não, Katita. EU acho que é o Mutations e pronto. Está achado. Não é porque o disco já começa com a singela, mas impactante, “Cold Brains”, certamente um dos pontos altos, cheia de camadas e efeitos (como diria um professor de jornalismo, “laranja boa a gente põe na frente”), segue com a linda balada melancólica “Nobody’s Fault But My Own” (que também tem uma bela versão na voz forte da Marianne Faithfull, ou ex-Mrs. Keith Richards, salvo engano meu), acompanha o ritmo com a mezzo folk, mezzo moderninha, “Lazy Files”, passa para uma quase “paródia de algo que eu não sei o que é” com “Cancelled Check”, com forte pegada blues canalha, cria um ponto de marasmo e relaxamento com “We Live Again”, para chegar ao ápice justamente na faixa 6, de um álbum com 11 músicas, com “Tropicalia”, nitidamente com influência (e samplers, eu me atreveria a dizer) de Mutantes e Caetano, depois torna a trazer uma balada calcada em cordas com “Dead Melodies”, daí ele começa a levantar a bola de novo com uma gaita e um ritmo blueseiro em “Bottle of Blues”, para desaguar em “O Maria”, outra pérola do jeito Beck-esquisto-mas-legal-de-ser, em que a voz ligeiramente áspera dele fica em evidência, e então  ele passa a preparar o final, com outra balada “Sing It Again”, ok, a música mais fraca do disco, e termina com “Static”, com uma psicodelia estranha, no mínimo, muito interessante.

Tudo faz um sentido junto, em contraponto à grande parte da produção do Beck, pois ele sempre foi um compositor de músicas boas e fortes, mas que custam a formar um conjunto tão harmonioso, tão bem amalgamado. O Odelay tem faixas ótimas, talvez melhores que muitas das músicas desse disco, tal qual algumas do Guero, mas que são isoladas, parecem uma coletânea. Ele só conseguiu fazer um álbum tão redondinho com o Midnight Vultures, como um jeitão dançante-farsesco, que eu, particularmente, não gosto muito, e como o Sea Change, um disco lindo, mas tão triste que é de cortar os pulsos (o meu segundo disco preferido do Beck; só depois vem a brilhante antologia de um ano só que é o Odelay).

***

Entretanto, a questão não é essa. O que me impele agora é: o que fazer quando a gente tem uma opinião que basicamente o resto do mundo discorda? Eu vivo me sentido assim. Eu sou super de esquerda pra caralho, acho o comunismo supremo, mas como a mesma Katita disse, “é preciso uma evolução espiritual muito grande para que isso aconteça”. E o que fazer aqui em SP, o ninho arraigado dos tucanos? Ficar quieto ou procurar emprego na Boitempo, a editora mais comunista que eu conheço. Já tentei as duas coisas, mas não tive sucesso em nenhuma.

Não me aguento calar quando ouço barbaridades políticas ou odes ao Itaim/Vila Olímpia/Moema. Ou elogios cegos à cidade de São Paulo, que, convenhamos, é uma porcaria de lugar para morar. Ok, tem muitas coisas legais aqui, coisas que esse país provinciano e pouco escolarizado não difunde pelos interiores, de modo geral, relativas ao nosso mundinho hype-cultural (que tendemos a crer, erroneamente, ser imprescindível). Tem muitas editoras aqui, e eu preciso disso para trabalhar. Mas o Rio de Janeiro também tem um fortíssimo mercado editorial e é uma cidade muito mais humana para se viver (tá certo, na faixa de terra que compreende a Zona Sul e tirando o pequeno probleminha de ter um zetalhão de favelas e pobreza clamando a todo instante o seu pedaço da fatia do bolo). E lá tem ônibus a madrugada inteira.

Eu já me ulcerei muito tentando ficar quieto quando ouço absurdos do tipo “por que você não compra um carro?”. Porque eu acho que a maior parte da humanidade devia andar de transporte público e não enfiar nas ruas já entupidas mais uma lataria de 900 kg pra transportar uma pessoa de 60/70 kg! Oras, bolas, pipocas!

Mas de tanto levar tensão pra casa, eu acabo soltando umas pérolas atravessadas como num dia em que cheguei atrasado ao trabalho (uma quinta-feira) porque tinha ido à balada no dia anterior: “Nossa, o que aconteceu com você? Ficamos preocupadas, já são 9h40”. Com a voz enrugada e rouca, respondi: “Me diverti horrores ontem à noite.” E fui pegar um café.

Tá vendo? Coitada da moça que não merecia ouvir isso logo de manhã. E que trouxa que eu sou ao falar umas asneiras dessas, campeão de perder pontos por respostas atravessadas no mundinho corporativo (e haja chocolate e gentilezas para tentar remediar a situação). Como resolver esse impasse, tendo em vista que SP (e o mundo) não é tolerante com os diferentes? Você até pode gostar de bandas e filmes bizarros, de sexo bizarro, mas não me fale que o Lula é o melhor presidente que o Brasil já teve!

Nos últimos tempos, estou inclinado a expor meu(s) verdadeiro(s) ponto(s) de vista, mas em pílulas. Quero que os outros pensem algo tipo: “Ele é tão legal, uma pena que não seja tão esquisito. Mesmo depois de tudo o que aconteceu, ainda vota no Lula?! Um cego em política.” Será que é pedir muito? Mas mesmo assim vou manter a tática dos chocolates.

***

E atenção, otários de plantão, não vão me seguir, hein?! Pelamordedeux (que em francês é mais chic), tirem suas próprias conclusões e sigam suas próprias teorias. Nada melhor, porém bem difícil, que a pluralidade de ideias. Eu acho que devemos nutrir profunda ojeriza à certas opiniões, como votar no Serra e/ou Kassab, mas mesmo assim temos de nos esforçar para respeitar as pessoas que as emitem. Algo como: “Eu acho uma completa idiotice alienada a sua visão política, mas eu respeito todas as outras coisas da sua pessoa”. E “todas as outras coisas” são, de fato, muitas coisas, e é o que importa.

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5 comentários sobre “Como diria uma música do Space, “Me and You Versus the World”

  1. Não foi isso que falei.. falei que prefiro o que tem new pollution. E agora a culpa é do i tunes porque ele diz album: odelay, mas ai a capa que ele coloca é do mutations….quando acho que deveria ser aquele cachorro feito de tapete… mas eu também gosto do que tem nitemare hippy girl ..she’s cooking salad for breakfast….

  2. Desculpa, a minha me memória me traiu no tocante à música (mas posso deixa assim, s/ corrigir, pra não repetir a música citada? eheheh). E eu me esqueci do “tapete de cachorro”, termo genial, devia tê-lo usado em algum lugar…

  3. Nossa Limão, não disse nada disso, mas firmeza. Da hora o blog. Frequentá-lo-ei com assiduidade. Aquele abraço!

  4. po lemon!
    dei várias opiniões “da boa” e depois vi que vc caiu offline!
    recebeu tudo aí?
    abrasss

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