Braga

Embora eu tenha uma uma imagem da capa da primeira edição de O homem rouco (comprei da biblioteca pública de SJC por um real) nas fotos do meu ôkrut, não foi esse o meu primeiro contato com o velho Braga. Foi no Rio de Janeiro, na zona norte, em Vicente de Carvalho, perto do Morro do Juramento (morro do Escadinha e do Bezerra da Silva (acho)), na casa da avó de um grande amigo, da primeira vez que eu fui ao RJ, com uns 15 anos. Antes disso, pra mim, Rubem Braga era somente um nome, se tanto. Lá, eu encontrei uma pequena coletânea de capa amarela na casa da Dona Valentina, que provavelmente veio encartada em uma edição dominical do jornal O Dia. A primeira crônica (que àquela altura eu achava que era um conto), chamava-se justamente “Conto de Natal” (http://www.aconteceucomigo.com/mensagens/mensagens-de-natal/conto-de-natal/, se alguém quiser ler, que leia logo, pois existem esse probleminhas de direito autoral, sabe?).

Que raiva eu senti do Braga no final daquele texto! O desgraçado estava contando uma história bunitinha, sobre um casal pobre, meio retirante, em busca de algum lugar para passar a noite. A mulher estava com uma “enorme barriga de 8 ou 9 meses”. O dia era 24 de dezembro. Como é de se esperar, ela dá à luz à meia-noite e eles batizam o menino de Jesus. O que até aí parece muito piegas, sofre uma guinda (mas não “de 360o.”, como diria a outra). Eu achei injusto como o autor meteu a mão na história e alterou de forma tão brutal o fluxo da história. Que final triste, que ódio do Braga! Foi como se ele dissesse: “essa crônica é minha, eu escrevo o que eu bem entender, você, leitor de coração mole, que se dane!”

Pouco depois eu encontrei o tal livro do Braga na biblioteca Cassiano Ricardo e logo na segunda crônica o Braga, assim por dizer (é cafona, eu sei), entrou para a minha vida (os meus amigos que me perdoem, por tanto ter parafraseado esse trecho ou mandado por e-mail):

“[…] Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.
[…]”

Daí aconteceram algumas outras coisas desimportantes nos oito anos seguintes, mas que não vêm ao caso, e eu pensei em fazer meu tcc (trabalho de conclusão de curso) da faculdade sobre o Rubem Braga. Seria uma breve biografia, nos moldes da coleção Paulicéia da Boitempo (http://boitempoeditorial.com.br/colecao_pauliceia.php). Já era o quarto ano, eu já devia ter sacado que eu não servia para o jornalismo. Uma sábia frase da minha orientadora à época me fez desistir: “Bruno, do jeito que está, você vai bombar”. Obrigado Nanami. E o espírito do Braga também deveria agradecê-la, ele se livrou de uma bela porcaria em sua memória. (Daí eu fiz um site de notícias de tecnologia com um amigo e, na minha banca, eu recebi um dos melhores elogios de uma professora: “Bruno Conde, dá raiva de ler a sua coluna, você parece o Diogo Mainardi da tecnologia”.)

***

Toda essa história chata foi instigada pela Letícia, depois do seguinte comentário: “Ah, pq tanta gente cita Rubem Braga em blog?!” Muito pertinente, por sinal, o Yahoo pode confirmar (eu odeio o Google, lembra?). Pois é, minha querida, eu sou, sim, mais um (e como é mais fácil escrever um texto bunito quando uma parte dele é roubada de um autor magistral).

***

Bônus: Também tem esse probleminha de direitos autorais, mas segue aqui um livro essencial do Braga, (ao que parece) na íntegra: http://www.scribd.com/doc/7022942/Rubem-Braga-200-CrOnicas-Escolhidas

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3 comentários sobre “Braga

  1. Limão,

    Vc tá com a mão boa. E tá só começando. Vou virar freguês.

    E esse trecho do Braga é foda. Eu sou dos amigos para os quais vc já o enviou várias vezes. E eu só tenho a agradecer. Mas não ando podendo ler isso nestes dias, não…

  2. Sr. Bruno Conde,

    Gostaria de deixar claro que o problema não é com o Braga, e sim com as citações! rs* Mas acho ótimo que o comentário pentelho tenha lhe inspirado…
    Gostei do texto.

  3. Limão, gostei! As referências joseenses me encheram de uma sensação nostálgica “quentinha”que depois se transformou numa raivinha após o trecho do Braga…Quando sai o próximo texto?

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