A história do gato xadrez

By Bruno Conde

Vou contar a história do gato xadrez. Outras pessoas também já ouviram falar dessa história. Mas é incrível como ninguém lembra (pelo menos ninguém para quem eu tenha perguntado). Muitos se recordam do título, mas não sabem recontá-las. Seria uma pequena fábula infantil sobre um gato malhado com manchas em xadrez, óbvio.

Até pouco tempo atrás eu achava que era invenção do meu pai, que me contava a história quando eu era pequeno, e eu adorava. Eu cheguei até a fazer um livrinho para a escola com a versão dele, que eu mesmo ilustrei (ficou horrível, não é preciso dizer). E eu já procurei inúmeras vezes pelo dito cujo e não encontrei. Uma vã esperança foi por terra há poucas semanas. Meus pais venderam a casa onde eu vivi por 19 anos (e eles por 26) em outubro do ano passado. A primeira coisa que eu pensei (ok, não foi exatamente a primeira, foi, sei lá, a 19a.) foi se eu encontraria o livrinho no processo de encaixotar tudo. Mas o mesmo pai que contava a história teve a brilhante ideia de levar primeiro livros e papéis para o apartamento novo, o que enfureceu a minha mãe pois ela sabia que eles iriam se encher de poeira com a reforma que o imóvel passaria. Não deu outra. E deu briga de casal. (Uma coisa legal nos últimos tempos é conseguir ver os meus pais como um casal. Às vezes, meu pai reclama para mim da minha mãe. Minha resposta é sempre a mesma: “A esposa é sua, ela é só minha mãe”.) Até agora livros e papéis estão bagunçados e espalhados pela casa e nenhum sinal do meu livrinho.

Eu temia pela resposta, mas não havia outra saída, tive de perguntar para o meu pai. E a resposta tão temida foi confirmada:
“Pai, como era mesmo aquela história do gato xadrez que você me contava quando eu era criança?”
“Hmmm, não lembro.”

Amigos me aconselharem a procurar no Yahoo (ninguém fala “faz uma busca no Yahoo”, mas como eu odeio o Google…). Qual a graça de descobrir a história agora? Ela deve estar guardada em algum canto da minha memória, esperando pacientemente para ser recordada.

Como eu continuo sem saber o conteúdo, então “a história do gato xadrez” virou a “história de como eu não me lembro da história do gato xadrez”.

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