Felicidade gratuita

Agosto 22, 2009 por Bruno Conde

Felicidade gratuita é chegar em casa, um pouco alcoolizado (pois nesta noite você já calibrou seus níveis etílicos em um bar com amigos), mas em vez de ir para a cama e ceder ao cansaço de um dia, depois de umas cervejas prazerosas, você decidiu ficar acordado só mais um pouquinho. Deitar no sofá, reclamar sozinho, em pensamento, sobre o porquê inventaram luzes tão luminosas para a sala e o quão longe os arquitetos projetaram a distância entre o interruptor e o sofá. Sentir o peso e o ronronar do gato sobre o peito. Adiar só por uns breves instantes a destituição do corpo e da alma perante o sono. Só um pouquinho mais…

Do lado de fora

Agosto 18, 2009 por Bruno Conde

Uma vez um grande amigo me disse que nós deveríamos ter o direito de não produzir. Ter o direito de ficar coçando, morgando, de jogar videogame o dia inteiro, de não produzir nada, nem “artisticamente”, nem profissionalmente, nem financeiramente. Seria praticamente o direito à depressão. O direto de viver fora do calendário, ou como diria um adorável capixaba, “de ficar trancado do lado de fora da vida” (se bem que o Braga não recomendava este autoexílio). Mas o Tiago, sabiamente, usou a conjugação verbal no futuro do pretérito, “deverÍAMOS”, enquanto bebíamos cerveja, tínhamos papos existencialistas e paquerávamos as garotas (e, é claro, não fazíamos nada). É óbvio que a sociedade não nos permite tal luxo. Se ficamos parados, o tempo, a falta de grana, a encheção de saco de nossos pais amigos e/ou namoradas nos engole. Outras pessoas que dependem direta ou indiretamente da gente ficam à mercê.

Em outra ocasião um professor da faculdade de jornalismo me falou uma máxima simples, que eu talvez poderia ter ouvido da boca de outro, mas foi o Fuser quem a proferiu: “o jornal sempre fecha” (ou algo do tipo). Não interessa se a edição está ruim, incompleta, cheia de mentiras e/ou inverdades, se tem muitos calhais, um jornal tem de fechar. Sempre e todos os dias. Como não poderia deixar de ser, o meu professor também nos ensinou (ou pelo menos se esforçou neste sentido) muitas outras coisas. Contou histórias de bastidores, nos indicou o que deveria ser escrito em determinados tipos de texto, nos deu dicas para como obter certas informações em entrevistas etc. Enfim, informações técnicas do mundinho do jornalismo. Dentre esses ensinamentos, sinceramente, eu pouco me recordo, tanto porque pouco os pus em prática, como também pouco a pouco fui me desinteressando do pelo fazer jornalístico – tirando estas recaídas em forma de crônicas.

O que ficou, para mim, não foi a informação, foi o conhecimento, a sabedoria. Porém, como diria o Hesse pela boca do seu Sidarta, a sabedoria não pode ser transmitida (logo, não pode ser ensinada). E eu completaria, ela só pode ser aprendida. Parece um paradoxo, mas é simples explicar: o verdadeiro conhecimento (por mais simples e pequeno que seja) tem de ser descoberto, captado, não vem pré-fabricado de uma fonte externa. Uma frase solta, e talvez despretensiosa, de um professor me incitou, tal qual a reflexão de um amigo durante mais um de nossos massantes e prazerosos papos existencialistas.

E neste momento eu uno as duas pontas: como solucionar a situação em que deveríamos nos permitir não produzir sendo que “o jornal sempre fecha” (“a vida continua”, “temos sempre de passar a fase do videogame”, “a roda gira” e muitas outras frases que poderiam figurar aqui)?

Uma vez um grande amigo me disse que nós deveríamos ter o direito de não produzir. Ter o direito de ficar coçando, morgando, de jogar videogame o dia inteiro, de não produzir nada, nem “artisticamente”, nem profissionalmente, nem financeiramente. Seria praticamente o direito à depressão. O direto de viver fora do calendário, ou como diria um adorável capixaba, “de ficar trancado do lado de fora da vida” (se bem que o Braga não recomendava este autoexílio). Mas o Tiago, sabiamente, usou a conjugação verbal no futuro do pretérito, “deverÍAMOS”, enquanto bebíamos cerveja, tínhamos papos existencialistas e paquerávamos as garotas (e, é claro, não fazíamos nada). É óbvio que a sociedade não nos permite tal luxo. Se ficamos parados, o tempo, a falta de grana, a encheção de saco de nossos pais amigos e/ou namoradas nos engole. Outras pessoas que dependem direta ou indiretamente da gente ficam à mercê.

Auto-Google

Abril 17, 2009 por Bruno Conde

(Ok, eu confesso, tive uma recaída e usei o Google, mas foi só dessa vez, depois eu volto a ser um devoto do qualquer outro sistema de busca que não use o slogan “Don’t be evil”)

“bixo, saca só: http://www.bandamadrugas.com/2008/12/nosso-vocalista-bruno-conde.html
“cara, que diabos é isso??? ”
“auto-google ”
“mas você não odeia o google? e olha que ele acabou de te dar um motivo para amá-lo. agora você faz parte de uma banda e você é o vocalista!”
http://www.myspace.com/luzoupoesia. e canto canções bunitas c/ o meu parceiro”
“tipo, o som da banda é definido por ela como ‘discoteca orgânica’”

***

Teve uma vez que eu encontrei com o Bruno Conde. Na faculdade, um professor me parou no corredor:
“Bruno, o que aconteceu, você não veio fazer o exame”
“Ô professor, eu não fiquei de exame da sua matéria. Ou fiquei…?”

Não fiquei. Era o Bruno Conde D’oro (o nome era esse, salvo engano meu). Eu sou o Bruno de Lima de Conde (minha mãe não gostou muito quando eu passei a suprimir o sobrenome da família dela na hora de assinar, mas também ela não gosta de várias coisas bem piores em mim).

Dias depois, na saída de uma aula, eu falava com um outro professor:
“Blá, blá, blá. Falou professor.”
“Tchau, Conde”

Um outro cara que estava entrando na sala naquele momento:
“Você é o Bruno Conde?”
“Sim”
“Muito prazer, Bruno Conde”

Caraca, não bastasse o cara ficar de exame do professor número 1, ele estava lá pra dar uma chorada para professor número 2, pois tinha bombado de faltas, e ainda se chama Bruno Conde!

***

E tem mais esse eu: http://www.sonico.com/u/17717345/Bruno_Conde (versão michê).

Uma frase perdida em busca de um texto

Abril 13, 2009 por Bruno Conde

É tão mais fácil acreditar que é a gente quem comete os erros do que aceitar que são os outros que erraram e que não há nada o que fazer.

(Eu odeio quando isso acontece, eu tentei escrever dois textos em torno deste tema, mas não saiu nada que prestasse. De vez em quando aparece uma situação dessas, uma ideia que seria a base para um texto – ou poesia ou letra de música ou seiláoquê – mas o produto final não sai, fica só na essência. Um outro caso é “um verso perdido em busca de uma poesia”: “Por que eu olho para as pessoas como se estivesse com fome?”)

A sustentável leveza do ser

Abril 2, 2009 por Bruno Conde

Preciso te contar uma coisa. Aconteceu uma coisa incrível comigo. Eu tinha começado a ler justamente  “A insustentável leveza do ser”. Não que eu não estivesse gostando, eu estava lendo avidamente, mas minha leitura foi subitamente interrompida por um fato inesperado: eu perdi o livro. Eu já tinha lido uns dois terços do livro, então eu estava bem familiarizado com Thomas, Tereza, Sabina e até a Karenin. E justo quando eu voltava da casa dos meus pais, fui guardar o carregador do celular num compartimento diferente da mala, de lá dentro, depois desse tempo todo, surge o livro. Parece que ele ficou se escondendo esperando o momento ideal para ser encontrado.

A história do gato xadrez

Março 28, 2009 por Bruno Conde

Vou contar a história do gato xadrez. Outras pessoas também já ouviram falar dessa história. Mas é incrível como ninguém lembra (pelo menos ninguém para quem eu tenha perguntado). Muitos se recordam do título, mas não sabem recontá-las. Seria uma pequena fábula infantil sobre um gato malhado com manchas em xadrez, óbvio.

Até pouco tempo atrás eu achava que era invenção do meu pai, que me contava a história quando eu era pequeno, e eu adorava. Eu cheguei até a fazer um livrinho para a escola com a versão dele, que eu mesmo ilustrei (ficou horrível, não é preciso dizer). E eu já procurei inúmeras vezes pelo dito cujo e não encontrei. Uma vã esperança foi por terra há poucas semanas. Meus pais venderam a casa onde eu vivi por 19 anos (e eles por 26) em outubro do ano passado. A primeira coisa que eu pensei (ok, não foi exatamente a primeira, foi, sei lá, a 19a.) foi se eu encontraria o livrinho no processo de encaixotar tudo. Mas o mesmo pai que contava a história teve a brilhante ideia de levar primeiro livros e papéis para o apartamento novo, o que enfureceu a minha mãe pois ela sabia que eles iriam se encher de poeira com a reforma que o imóvel passaria. Não deu outra. E deu briga de casal. (Uma coisa legal nos últimos tempos é conseguir ver os meus pais como um casal. Às vezes, meu pai reclama para mim da minha mãe. Minha resposta é sempre a mesma: “A esposa é sua, ela é só minha mãe”.) Até agora livros e papéis estão bagunçados e espalhados pela casa e nenhum sinal do meu livrinho.

Eu temia pela resposta, mas não havia outra saída, tive de perguntar para o meu pai. E a resposta tão temida foi confirmada:
“Pai, como era mesmo aquela história do gato xadrez que você me contava quando eu era criança?”
“Hmmm, não lembro.”

Amigos me aconselharem a procurar no Yahoo (ninguém fala “faz uma busca no Yahoo”, mas como eu odeio o Google…). Qual a graça de descobrir a história agora? Ela deve estar guardada em algum canto da minha memória, esperando pacientemente para ser recordada.

Como eu continuo sem saber o conteúdo, então “a história do gato xadrez” virou a “história de como eu não me lembro da história do gato xadrez”.

Massinha de modelar

Março 16, 2009 por Bruno Conde

Natal:

“Como eu faço pra odiar menos o mundo?”
“Uma mulher ajuda.”

***

“Eu lembro de você, da fila do Extra e do Animal Collective.”
“Ah é, desculpa.”

Eu completamente não lembrava dela. Mas é engraçado como a memória é uma coisa moldável. Agora, a outra menina que a acompanhava a minha amiga no Extra e no Animal Collective tem nitidamente o rosto dela. Naquela noite não tinha.

Como diria uma música do Space, “Me and You Versus the World” (a pedidos, versão enxuta)

Março 14, 2009 por Bruno Conde

“O Mutations é o melhor disco do Beck.”
Michael: “Claro que não! É o Odelay.”

“Qual é o melhor disco do Beck?”
Zerbo: “Aquele cinzinha é muito bom, mas é esse que tem ‘New Polution’? Não, né? Então, é esse quem tem ‘New Polution’. Mas eu também gosto pra caralho do Midnight Vultures. Fico entre esse dois, velho.”

“Obviamente, o Mutations é o melhor disco do Beck.”
Katita: “Você vai ter que provar.”
“Claro que não!”
Katita: “Você vai ter que provar faixa a faixa porque esse disco é melhor que os outros.”

***

Claro que não, Katita. EU acho que é o Mutations e pronto. E está achado. Não é porque o disco já começa com a impactante, “Cold Brains”, certamente um dos pontos altos, cheia de camadas e efeitos (como diria um professor de jornalismo, “laranja boa a gente põe na frente”), segue com a linda balada melancólica “Nobody’s Fault But My Own”, continua com a mezzo folk, mezzo moderninha, “Lazy Files”, passa para uma “paródia de algo que eu não sei o que é” com “Cancelled Check”, cria um ponto de marasmo e relaxamento com “We Live Again”, para chegar ao ápice justamente na faixa 6, de um álbum com 11 músicas, com “Tropicalia”, nitidamente com influência de Mutantes e Caetano, depois torna a trazer uma balada calcada em cordas com “Dead Melodies”, daí ele começa a levantar a bola de novo com um ritmo blueseiro em “Bottle of Blues”, para desaguar em “O Maria”, outra pérola do jeito Beck-esquisto-mas-legal-de-ser, e então ele passa a preparar o final, com outra balada “Sing It Again”, ok, a música mais fraca do disco, e termina com “Static”, uma psicodelia estranha.

Tudo faz um sentido junto, em contraponto à grande parte da produção do Beck, pois ele sempre foi um compositor de músicas boas e fortes, mas que custam a formar um conjunto tão harmonioso. O Odelay tem faixas ótimas, talvez melhores que muitas das músicas desse disco, mas que são isoladas, parecem uma coletânea.

***

Entretanto, a questão não é essa. O que me impele agora é: o que fazer quando a gente tem uma opinião que basicamente o resto do mundo discorda? Eu vivo me sentido assim. Eu sou super de esquerda pra caralho, acho o comunismo supremo, mas como a mesma Katita disse, “é preciso uma evolução espiritual muito grande para que isso aconteça”. E o que fazer aqui em SP, o ninho arraigado dos tucanos?

Não me aguento calar quando ouço barbaridades políticas ou odes à cidade de São Paulo, que, convenhamos, é uma porcaria de lugar para se morar. Ok, tem muitas coisas legais aqui, coisas que esse país provinciano e pouco escolarizado não difunde pelos interiores, de modo geral, relativas ao nosso mundinho hype-cultural (que tendemos a crer, erroneamente, ser imprescindível). Eu já me ulcerei muito tentando ficar quieto quando ouço absurdos do tipo “por que você não compra um carro?”. Porque eu acho que a maior parte da humanidade devia andar de transporte público e não enfiar nas ruas já entupidas mais uma lataria de 900 kg pra transportar uma pessoa de 60/70 kg! Oras, bolas, pipocas!

Mas de tanto levar tensão pra casa, eu acabo soltando umas pérolas truncadas como num dia em que cheguei atrasado ao trabalho (uma quinta-feira) porque tinha ido à balada no dia anterior: “Nossa, o que aconteceu com você? Ficamos preocupadas, já são 9h40”. Com a voz enrugada e rouca, respondi: “Me diverti horrores ontem à noite.” E fui pegar um café. Tá vendo? Coitada da moça que não merecia ouvir isso logo de manhã. E que trouxa que eu sou ao falar umas asneiras dessas, campeão de perder pontos por respostas atravessadas no mundinho corporativo (e haja chocolate e gentilezas para tentar remediar a situação).

Nos últimos tempos, estou inclinado a expor meu(s) verdadeiro(s) ponto(s) de vista, mas seletivamente. Quero que os outros pensem algo tipo: “Ele é tão legal, uma pena que não seja tão esquisito. Mesmo depois de tudo o que aconteceu, ainda acha que o Lula é o melhor presidente que o Brasil já teve?! Um cego em política.” E a recíproca é verdadeira: eu acho que devemos nutrir profunda ojeriza à certas opiniões, como votar no Serra e/ou Kassab, mas mesmo assim temos de nos esforçar para respeitar as pessoas que as emitem. Algo como: “Eu acho uma completa idiotice alienada a sua visão política, mas eu respeito todas as outras coisas da sua pessoa”. Mas mesmo assim vou manter a tática dos chocolates.

Como diria uma música do Space, “Me and You Versus the World”

Março 12, 2009 por Bruno Conde

“O Mutations é o melhor disco do Beck.”
Michael: “Claro que não! É o Odelay.”

“Qual é o melhor disco do Beck?”
Mancha: “Os louros sempre vão para o Odelay, mas o The Information também é foda”
“Mas, Mancha, qual você acha que é o melhor melhor?”
Mancha: “Ah, o Odelay mesmo.”

“Qual é o melhor disco do Beck?”
Zerbo: “Aquele cinzinha é muito bom, mas é esse que tem ‘New Polution’? Não, né? Então, é esse quem tem ‘New Polution’. Mas eu também gosto pra caralho do Midnight Vultures. Fico entre esse dois, velho.”

“Qual o melhor disco do Beck?”
Alice: “Eu não sei os nomes, qual tem ‘Where It’s At’? É o mesmo que tem ‘Looser’, né? É esse.”
“Não, o que tem ‘Looser’ é o Mellow Gold. O que tem ‘Where It’s At’ é o Odelay
Alice: “Então, acho que é esse.”
“Qual?”
Alice: “O que tem ‘Where It’s At’.”

“Obviamente, o Mutations é o melhor disco do Beck.”
Katita: “Você vai ter que provar.”
“Claro que não!”
Katita: “Você vai ter que provar faixa a faixa porque esse disco é melhor que os outros.”

***

Claro que não, Katita. EU acho que é o Mutations e pronto. Está achado. Não é porque o disco já começa com a singela, mas impactante, “Cold Brains”, certamente um dos pontos altos, cheia de camadas e efeitos (como diria um professor de jornalismo, “laranja boa a gente põe na frente”), segue com a linda balada melancólica “Nobody’s Fault But My Own” (que também tem uma bela versão na voz forte da Marianne Faithfull, ou ex-Mrs. Keith Richards, salvo engano meu), acompanha o ritmo com a mezzo folk, mezzo moderninha, “Lazy Files”, passa para uma quase “paródia de algo que eu não sei o que é” com “Cancelled Check”, com forte pegada blues canalha, cria um ponto de marasmo e relaxamento com “We Live Again”, para chegar ao ápice justamente na faixa 6, de um álbum com 11 músicas, com “Tropicalia”, nitidamente com influência (e samplers, eu me atreveria a dizer) de Mutantes e Caetano, depois torna a trazer uma balada calcada em cordas com “Dead Melodies”, daí ele começa a levantar a bola de novo com uma gaita e um ritmo blueseiro em “Bottle of Blues”, para desaguar em “O Maria”, outra pérola do jeito Beck-esquisto-mas-legal-de-ser, em que a voz ligeiramente áspera dele fica em evidência, e então  ele passa a preparar o final, com outra balada “Sing It Again”, ok, a música mais fraca do disco, e termina com “Static”, com uma psicodelia estranha, no mínimo, muito interessante.

Tudo faz um sentido junto, em contraponto à grande parte da produção do Beck, pois ele sempre foi um compositor de músicas boas e fortes, mas que custam a formar um conjunto tão harmonioso, tão bem amalgamado. O Odelay tem faixas ótimas, talvez melhores que muitas das músicas desse disco, tal qual algumas do Guero, mas que são isoladas, parecem uma coletânea. Ele só conseguiu fazer um álbum tão redondinho com o Midnight Vultures, como um jeitão dançante-farsesco, que eu, particularmente, não gosto muito, e como o Sea Change, um disco lindo, mas tão triste que é de cortar os pulsos (o meu segundo disco preferido do Beck; só depois vem a brilhante antologia de um ano só que é o Odelay).

***

Entretanto, a questão não é essa. O que me impele agora é: o que fazer quando a gente tem uma opinião que basicamente o resto do mundo discorda? Eu vivo me sentido assim. Eu sou super de esquerda pra caralho, acho o comunismo supremo, mas como a mesma Katita disse, “é preciso uma evolução espiritual muito grande para que isso aconteça”. E o que fazer aqui em SP, o ninho arraigado dos tucanos? Ficar quieto ou procurar emprego na Boitempo, a editora mais comunista que eu conheço. Já tentei as duas coisas, mas não tive sucesso em nenhuma.

Não me aguento calar quando ouço barbaridades políticas ou odes ao Itaim/Vila Olímpia/Moema. Ou elogios cegos à cidade de São Paulo, que, convenhamos, é uma porcaria de lugar para morar. Ok, tem muitas coisas legais aqui, coisas que esse país provinciano e pouco escolarizado não difunde pelos interiores, de modo geral, relativas ao nosso mundinho hype-cultural (que tendemos a crer, erroneamente, ser imprescindível). Tem muitas editoras aqui, e eu preciso disso para trabalhar. Mas o Rio de Janeiro também tem um fortíssimo mercado editorial e é uma cidade muito mais humana para se viver (tá certo, na faixa de terra que compreende a Zona Sul e tirando o pequeno probleminha de ter um zetalhão de favelas e pobreza clamando a todo instante o seu pedaço da fatia do bolo). E lá tem ônibus a madrugada inteira.

Eu já me ulcerei muito tentando ficar quieto quando ouço absurdos do tipo “por que você não compra um carro?”. Porque eu acho que a maior parte da humanidade devia andar de transporte público e não enfiar nas ruas já entupidas mais uma lataria de 900 kg pra transportar uma pessoa de 60/70 kg! Oras, bolas, pipocas!

Mas de tanto levar tensão pra casa, eu acabo soltando umas pérolas atravessadas como num dia em que cheguei atrasado ao trabalho (uma quinta-feira) porque tinha ido à balada no dia anterior: “Nossa, o que aconteceu com você? Ficamos preocupadas, já são 9h40”. Com a voz enrugada e rouca, respondi: “Me diverti horrores ontem à noite.” E fui pegar um café.

Tá vendo? Coitada da moça que não merecia ouvir isso logo de manhã. E que trouxa que eu sou ao falar umas asneiras dessas, campeão de perder pontos por respostas atravessadas no mundinho corporativo (e haja chocolate e gentilezas para tentar remediar a situação). Como resolver esse impasse, tendo em vista que SP (e o mundo) não é tolerante com os diferentes? Você até pode gostar de bandas e filmes bizarros, de sexo bizarro, mas não me fale que o Lula é o melhor presidente que o Brasil já teve!

Nos últimos tempos, estou inclinado a expor meu(s) verdadeiro(s) ponto(s) de vista, mas em pílulas. Quero que os outros pensem algo tipo: “Ele é tão legal, uma pena que não seja tão esquisito. Mesmo depois de tudo o que aconteceu, ainda vota no Lula?! Um cego em política.” Será que é pedir muito? Mas mesmo assim vou manter a tática dos chocolates.

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E atenção, otários de plantão, não vão me seguir, hein?! Pelamordedeux (que em francês é mais chic), tirem suas próprias conclusões e sigam suas próprias teorias. Nada melhor, porém bem difícil, que a pluralidade de ideias. Eu acho que devemos nutrir profunda ojeriza à certas opiniões, como votar no Serra e/ou Kassab, mas mesmo assim temos de nos esforçar para respeitar as pessoas que as emitem. Algo como: “Eu acho uma completa idiotice alienada a sua visão política, mas eu respeito todas as outras coisas da sua pessoa”. E “todas as outras coisas” são, de fato, muitas coisas, e é o que importa.

Braga

Março 12, 2009 por Bruno Conde

Embora eu tenha uma uma imagem da capa da primeira edição de O homem rouco (comprei da biblioteca pública de SJC por um real) nas fotos do meu ôkrut, não foi esse o meu primeiro contato com o velho Braga. Foi no Rio de Janeiro, na zona norte, em Vicente de Carvalho, perto do Morro do Juramento (morro do Escadinha e do Bezerra da Silva (acho)), na casa da avó de um grande amigo, da primeira vez que eu fui ao RJ, com uns 15 anos. Antes disso, pra mim, Rubem Braga era somente um nome, se tanto. Lá, eu encontrei uma pequena coletânea de capa amarela na casa da Dona Valentina, que provavelmente veio encartada em uma edição dominical do jornal O Dia. A primeira crônica (que àquela altura eu achava que era um conto), chamava-se justamente “Conto de Natal” (http://www.aconteceucomigo.com/mensagens/mensagens-de-natal/conto-de-natal/, se alguém quiser ler, que leia logo, pois existem esse probleminhas de direito autoral, sabe?).

Que raiva eu senti do Braga no final daquele texto! O desgraçado estava contando uma história bunitinha, sobre um casal pobre, meio retirante, em busca de algum lugar para passar a noite. A mulher estava com uma “enorme barriga de 8 ou 9 meses”. O dia era 24 de dezembro. Como é de se esperar, ela dá à luz à meia-noite e eles batizam o menino de Jesus. O que até aí parece muito piegas, sofre uma guinda (mas não “de 360o.”, como diria a outra). Eu achei injusto como o autor meteu a mão na história e alterou de forma tão brutal o fluxo da história. Que final triste, que ódio do Braga! Foi como se ele dissesse: “essa crônica é minha, eu escrevo o que eu bem entender, você, leitor de coração mole, que se dane!”

Pouco depois eu encontrei o tal livro do Braga na biblioteca Cassiano Ricardo e logo na segunda crônica o Braga, assim por dizer (é cafona, eu sei), entrou para a minha vida (os meus amigos que me perdoem, por tanto ter parafraseado esse trecho ou mandado por e-mail):

“[...] Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.
[...]”

Daí aconteceram algumas outras coisas desimportantes nos oito anos seguintes, mas que não vêm ao caso, e eu pensei em fazer meu tcc (trabalho de conclusão de curso) da faculdade sobre o Rubem Braga. Seria uma breve biografia, nos moldes da coleção Paulicéia da Boitempo (http://boitempoeditorial.com.br/colecao_pauliceia.php). Já era o quarto ano, eu já devia ter sacado que eu não servia para o jornalismo. Uma sábia frase da minha orientadora à época me fez desistir: “Bruno, do jeito que está, você vai bombar”. Obrigado Nanami. E o espírito do Braga também deveria agradecê-la, ele se livrou de uma bela porcaria em sua memória. (Daí eu fiz um site de notícias de tecnologia com um amigo e, na minha banca, eu recebi um dos melhores elogios de uma professora: “Bruno Conde, dá raiva de ler a sua coluna, você parece o Diogo Mainardi da tecnologia”.)

***

Toda essa história chata foi instigada pela Letícia, depois do seguinte comentário: “Ah, pq tanta gente cita Rubem Braga em blog?!” Muito pertinente, por sinal, o Yahoo pode confirmar (eu odeio o Google, lembra?). Pois é, minha querida, eu sou, sim, mais um (e como é mais fácil escrever um texto bunito quando uma parte dele é roubada de um autor magistral).

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Bônus: Também tem esse probleminha de direitos autorais, mas segue aqui um livro essencial do Braga, (ao que parece) na íntegra: http://www.scribd.com/doc/7022942/Rubem-Braga-200-CrOnicas-Escolhidas